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Emirados Árabes Unidos ajustam plano de data centers de inteligência artificial após ataques do Irã

•REUTERS/Noah Berger para AWS

Os Emirados Árabes Unidos estão realizando uma revisão discreta em seus planos para um ambicioso projeto de data centers de inteligência artificial (IA) de 5 gigawatts, considerado um dos maiores fora dos Estados Unidos. A iniciativa, que inicialmente previa a construção de um campus de 26 quilômetros quadrados em Abu Dhabi, está sendo reestruturada em resposta às tensões recentes na região, especialmente após ataques do Irã que elevaram preocupações sobre a segurança da infraestrutura crítica. Segundo fontes próximas ao assunto ouvidas pela Reuters, a mudança visa distribuir os centros de dados pelo território nacional, ao invés de concentrá-los em uma única localização, visando aumentar a resiliência contra possíveis ataques.

As autoridades dos Emirados também estão considerando medidas para reforçar a proteção das instalações, incluindo a instalação de sistemas de defesa aérea e a construção de estruturas subterrâneas, capazes de resistir a ataques de drones e mísseis. Essas modificações, que ainda não haviam sido divulgadas oficialmente, refletem a crescente preocupação com a vulnerabilidade de infraestruturas estratégicas na região, especialmente após ataques recentes a centros de computação na região do Golfo.

O projeto de data centers é fundamental para as ambições do país de se consolidar como uma potência global em inteligência artificial. Os planos para o Campus de IA Emirados Árabes Unidos-EUA, uma parceria com empresas de tecnologia americanas, foram anunciados durante a visita do então presidente Donald Trump ao país, no ano passado. A iniciativa visa substituir a dependência do petróleo por uma economia baseada em tecnologia e inovação, com a infraestrutura de IA desempenhando papel central nesse processo. Liderada pela empresa de inteligência artificial G42, controlada pelo Sheikh Tahnoun bin Zayed al Nahyan — conselheiro de segurança nacional e irmão do presidente do país — a iniciativa busca atrair investimentos e parcerias internacionais.

Em troca de acesso às tecnologias avançadas de chips de IA da Nvidia e de outras empresas americanas, os Emirados concordaram em romper laços de cooperação com a China na área de IA e direcionar seus investimentos para data centers nos Estados Unidos, por meio da iniciativa Stargate, uma joint venture entre OpenAI, Oracle e SoftBank. Essa estratégia visa fortalecer a posição do país no cenário global de inteligência artificial, ao mesmo tempo em que busca proteger sua infraestrutura contra ameaças externas.

A primeira fase do projeto, que compreende um cluster de computação de 1 gigawatt avaliado em US$ 30 bilhões, teve início no ano passado. A previsão é que os primeiros 200 megawatts de capacidade entrem em operação ainda neste ano. Quando concluído, o centro de dados deverá conectar todas as instituições governamentais e comerciais dos Emirados Árabes Unidos aos modelos de IA mais avançados do mundo, conforme afirmou Larry Ellison, presidente e diretor de tecnologia da Oracle, parceira do projeto.

A G42 declarou à Reuters que o progresso na construção do campus de IA segue conforme o planejado, embora admita que os detalhes do projeto estejam sujeitos a revisões contínuas, em função de padrões de segurança, resiliência e operacionais exigidos para infraestruturas críticas. A OpenAI também confirmou que está colaborando com os Emirados para concretizar sua visão de IA, avançando na infraestrutura e nas prioridades de adoção necessárias.

Entretanto, as fontes consultadas destacam que os ataques do Irã, iniciados em fevereiro, tiveram impacto direto na estratégia de proteção do projeto. Após o lançamento de mísseis e drones iranianos contra países do Golfo, incluindo ataques a data centers da Amazon Web Services em Dubai e Bahrein em março, as autoridades locais passaram a reavaliar suas condições de segurança. Em abril, o Irã divulgou um vídeo que mostrava um mapa indicando a localização do complexo Stargate UAE, sugerindo que o local estaria sob ameaça. A região próxima à Base Aérea de Al Dhafra, que abriga tropas americanas e tem sido alvo de ataques durante o conflito, foi identificada como uma possível área de risco.

Especialistas como Daniel Benaim, ex-subsecretário de Estado dos EUA para assuntos da Península Arábica, avaliam que o conflito representa um “terremoto econômico” para os países do Golfo, que tradicionalmente se apresentavam como regiões seguras para investimentos. Segundo Benaim, a necessidade de reforçar a infraestrutura crítica é imperativa, levando os países da região a reconsiderar suas estratégias de segurança para tranquilizar parceiros e investidores internacionais.

A primeira fase do projeto, com a construção do cluster de 1 gigawatt, deve seguir seu cronograma, embora com adaptações para aumentar sua resistência a ataques aéreos. Entre as medidas consideradas estão a instalação de sistemas de defesa aérea, como interceptores de drones e mísseis, além de estruturas subterrâneas e o uso de materiais resistentes a explosões. Algumas instalações também podem ser transferidas para regiões montanhosas, semelhantes às estratégias adotadas em outros países, onde centros de dados são construídos dentro de cavernas ou bunkers desativados. Os Emirados, predominantemente planos e desérticos, possuem cadeias montanhosas no norte e nordeste, em Ras Al Khaimah e Fujairah, que podem ser aproveitadas para esse fim.

As ações de proteção incluem ainda o reforço de sistemas de energia e refrigeração de reserva, essenciais para a operação contínua dos data centers, além de equipamentos de interferência eletrônica para bloquear ataques de drones e mísseis. Assim, o país busca equilibrar seus ambiciosos planos de desenvolvimento tecnológico com a necessidade de garantir a segurança de sua infraestrutura crítica diante do cenário de tensões regionais.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade