O cenário do mercado de crédito no Brasil passa por uma fase de forte pressão, marcada por juros reais elevados e aumento na inadimplência. Apesar da redução da taxa básica de juros, que recuou de 15% para 14% ao ano, as perspectivas de uma queda expressiva nos próximos períodos permanecem incertas, o que demanda atenção redobrada por parte de investidores e empresas.
Segundo o relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, a expectativa do mercado indica que a taxa de juros de longo prazo deve se estabelecer em torno de 13%. Este cenário, considerado otimista, foi destacado por Alexandre Cruz, CEO da JiveMauá, durante participação no programa “Café com Investidor”. Cruz ressaltou que, independentemente de a taxa se estabilizar em 13%, 13,5% ou 14%, os juros reais — ou seja, aqueles acima da inflação — continuam em níveis historicamente elevados, próximos de 8% ao ano. Tal condição reforça a dificuldade de obtenção de crédito e aumenta os riscos para os agentes econômicos.
A crise de crédito atual também tem raízes no legado da pandemia de COVID-19, período em que as empresas enfrentaram queda de faturamento e aumento do endividamento. Nesse período, a taxa de juros, que antes girava em torno de 2%, saltou para 14,75% em um intervalo de aproximadamente um ano e oito meses. Cruz destacou que é extremamente difícil para qualquer setor manter operações pagando juros reais tão altos por um período prolongado, especialmente ao longo de quatro anos. Como consequência, observa-se uma redução generalizada na oferta de crédito na economia, além de uma inadimplência que preocupa os analistas, uma vez que a demanda por recursos supera a disponibilidade de crédito no mercado.
Apesar do ambiente desafiador, o cenário também apresenta oportunidades para investidores com estrutura financeira adequada. Para aqueles capazes de realizar empréstimos de forma mais sofisticada e estruturada, há espaço relevante no mercado de crédito. Contudo, a cautela permanece fundamental. É imprescindível selecionar empresas com geração de caixa sólida e margens capazes de suportar o prolongado período de juros elevados, especialmente considerando que a situação fiscal do Brasil não indica uma redução significativa das taxas no curto prazo.
Na análise de ativos considerados estressados ou em situações especiais, Cruz enfatiza que uma das principais estratégias é garantir que o pior cenário possível não resulte em perdas para o investidor. Isso envolve uma avaliação cuidadosa de cada ativo individualmente, bem como uma visão de portfólio que leve em conta garantias associadas aos investimentos. Essas garantias podem oferecer proteção contra a não recuperação de uma devedora, permitindo ao investidor sair do risco mesmo diante de uma crise prolongada. Cruz reforça que a máxima de que “quanto pior, melhor” não se aplica necessariamente neste contexto, especialmente quando o ciclo de crise ainda não está próximo do seu fim.
O programa “Café com Investidor” é uma produção do NeoFeed em parceria com a CNN Brasil, apresentado por Ralphe Manzoni. Os episódios inéditos são veiculados quinzenalmente às 19h45 no canal CNN Money, oferecendo análises e orientações sobre o cenário de investimentos no Brasil.