O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) que deixará o cargo em meio à crise financeira desencadeada pela intervenção do Banco Central Paraguaio (BCP) no Ueno Bank. A renúncia foi comunicada enquanto a Câmara dos Deputados avaliava a abertura de um processo de impeachment contra o mandatário. Com a saída, o vice-presidente Pedro Allana deverá assumir a Presidência da República.
Em uma mensagem divulgada pelas redes sociais, Peña disse que tomou a decisão para proteger a estabilidade do país e preservar as instituições paraguaias. O presidente classificou o momento como um dos mais difíceis de sua vida e afirmou que os interesses da República deveriam se sobrepor a qualquer pessoa ou circunstância.
Ao anunciar a renúncia, Peña também pediu desculpas à população por eventuais falhas cometidas durante o mandato. Ele negou, porém, que tenha agido com a intenção de trair a confiança dos paraguaios que o elegeram.
Liquidação do Ueno Bank desencadeou crise nacional
A crise começou na terça-feira (3), quando o Ueno Bank foi liquidado após uma intervenção do Banco Central. A instituição digital reunia aproximadamente 2,9 milhões de correntistas, número equivalente a cerca de 60% da população adulta do Paraguai.
Com a medida, os depósitos dos clientes ficaram congelados. O bloqueio afetou não apenas os usuários do banco, mas também o funcionamento do comércio e a rotina de milhões de pessoas, ampliando rapidamente o impacto da crise para além do sistema financeiro.
A turbulência econômica evoluiu para uma crise política nesta quinta-feira, quando a Câmara dos Deputados iniciou a discussão sobre o impeachment de Peña. O movimento ganhou força com a adesão do Partido Colorado, legenda do presidente, que passou a defender sua saída do cargo.
Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e ex-presidente do Paraguai, declarou que a sigla não apoiaria o que chamou de “latrocínio de fundos públicos, privados e dos aposentados”. Dois dias antes, no entanto, o presidente do Congresso, Bachi Nunéz, havia dito que Peña não poderia ser responsabilizado diretamente, pois o Banco Central possui autonomia institucional.
Dirigentes do Banco Central e do Ueno Bank são investigados
Após a liquidação da instituição financeira, Carlos Carvallo renunciou à presidência do Banco Central Paraguaio. Antes de assumir o comando da autoridade monetária, ele havia sido dirigente do Ueno Bank até 2023. A passagem pela instituição passou a ser questionada no debate público por causa de possíveis conflitos de interesse.
O Ministério Público do Paraguai solicitou a prisão de oito pessoas, entre elas Juan Manuel Gustale, presidente do Ueno Bank. Ao mesmo tempo, manifestações passaram a ocorrer nas ruas, com cobranças por responsabilização dos envolvidos na crise bancária.
A oposição também questiona a relação de Peña com o grupo controlador do banco. O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, conglomerado que controla o Ueno Bank, até março de 2025. O governo é ainda criticado pelos investimentos feitos pelo Instituto de Seguridade Social (PIS), estatal paraguaia, na instituição financeira.
O Ueno Bank é responsável pela administração do pagamento de pensões de milhares de aposentados e concentra cerca de 30% dos depósitos de fundos públicos. Esses recursos são estimados em US$ 850 milhões. Para a oposição, a nomeação de um ex-dirigente da instituição para a presidência do Banco Central aumentou as dúvidas sobre a forma como a crise foi conduzida.
Durante a sessão da Câmara, a deputada Johanna Ortega, do Partido País Solidário (PPS), afirmou que os recursos dos aposentados eram direcionados a uma instituição próxima ao presidente. Segundo ela, o governo já havia sido alertado sobre conflitos de interesse e sobre o suposto uso de estruturas públicas em benefício de negócios privados.
“Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio — prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente”, declarou a deputada.
Garantia de depósitos não cobre a maior parte dos valores
O Paraguai dispõe de um fundo garantidor que permite o reembolso de até US$ 38 mil por pessoa. Na moeda local, o limite corresponde a ₲ 228.300.000, equivalente a 75 salários-mínimos.
Apesar da cobertura, a agência de classificação de risco Moody’s demonstrou preocupação com os depósitos que excedem o teto de proteção. Segundo informações divulgadas pela Bloomberg Línea com base em uma nota da agência, o Banco Central informou que 97% dos depositantes teriam seus valores integralmente cobertos.
O cenário é diferente quando considerados os recursos depositados. Apenas 30% dos depósitos do Ueno Bank estariam dentro do limite garantido, o que deixa uma parcela significativa dos valores sujeita aos efeitos da liquidação da instituição.
A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) afirmou que duas em cada três transações feitas pelas grandes redes varejistas do país passam por contas do Ueno Bank. Em comunicado divulgado pela imprensa local, a entidade alertou para o risco de uma semiparalisação do mercado comercial e disse que as consequências da crise atingem diretamente as famílias.
A situação também ameaça a imagem que o Paraguai vinha consolidando como um destino emergente para investimentos estrangeiros na América do Sul. Para a Moody’s, o episódio será um teste para a capacidade das autoridades de administrar os efeitos da crise envolvendo uma instituição financeira de grande alcance.
Renúncia ocorre em governo do Partido Colorado
Eleito em 2023, Santiago Peña pertence à direita conservadora e é filiado ao Partido Colorado. A legenda controla o poder no Paraguai há aproximadamente sete décadas, com exceção do período entre 1947 e 1952.
No Brasil, setores políticos costumam apresentar o Paraguai como um exemplo de desempenho econômico e financeiro. O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), associa essa visão à presença do agronegócio brasileiro no país vizinho.
De acordo com Schavelzon, grupos brasileiros mantêm contatos políticos estabelecidos no Paraguai. Ele também cita a existência de agências do Banco do Brasil e o uso do português em escolas públicas, prática que estaria em desacordo com a legislação paraguaia.
Com informações da Agência Brasil.