A Allos, uma das maiores proprietárias de shoppings no Brasil, enfrenta atualmente os efeitos do cenário de juros altos no país, o que tem limitado sua capacidade de ampliar seus empreendimentos e ajustado sua estratégia de investimentos. Em entrevista concedida ao programa “Call de Negócios”, Rafael Sales, CEO da companhia, detalhou como a volatilidade macroeconômica tem influenciado suas operações e apresentou as perspectivas para os próximos meses.
Segundo Sales, o elevado nível de juros não representa apenas o custo do capital, mas também uma avaliação do risco de fazer negócios no Brasil. Ele explicou que os juros elevados elevam o custo de investimentos e funcionam como uma precificação do risco associado às operações comerciais no país. Essa condição tem levado a Allos a adotar uma postura de maior cautela na alocação de recursos, uma vez que seus retornos são gradualmente obtidos por meio de receitas de aluguéis, que se acumulam ao longo do tempo.
O impacto dessa conjuntura se reflete na redução significativa do número de projetos em andamento pela companhia. Enquanto, em anos anteriores, a expectativa era de lançar entre 15 e 20 expansões ou transformações de shoppings, atualmente a previsão é de realizar apenas quatro ou cinco desses projetos. Essa diminuição reflete a necessidade de se adaptar às condições de mercado, que dificultam a realização de novos empreendimentos de grande escala.
Apesar dessas dificuldades, Rafael Sales destacou que a estratégia central da Allos permanece inalterada. A companhia vem se preparando nos últimos anos para enfrentar diferentes cenários econômicos, fortalecendo seu portfólio com shoppings considerados destinos relevantes para os consumidores. Essa preparação visa garantir a resiliência do negócio diante da volatilidade atual.
Outro ponto abordado na entrevista foi a recuperação judicial das Casas Bahia, que resultou no fechamento de aproximadamente 16 lojas localizadas em empreendimentos administrados pela Allos. O executivo afirmou que os valores de aluguel perdidos por conta dessas lojas não são divulgados individualmente, mas manifestou solidariedade à varejista, ressaltando sua admiração e respeito pela marca. Ele atribui as dificuldades enfrentadas pelas Casas Bahia a dois fatores principais: o cenário macroeconômico de juros elevados, agravado por uma suposta falta de disciplina fiscal, e a concorrência de plataformas de comércio eletrônico chinesas, que vendem produtos sem a incidência de impostos, tornando-se uma ameaça à competitividade das lojas físicas tradicionais.
Apesar do impacto negativo na receita previsto para o segundo semestre, a Allos mantém a expectativa de que há demanda suficiente para realocar as áreas desocupadas por essas lojas para segmentos de lazer, entretenimento e gastronomia, que apresentam crescimento expressivo no mercado de shoppings.
Ainda na entrevista, Rafael Sales comentou sobre a parceria firmada entre a Allos e a Kinea para a criação de um fundo de investimentos voltado a ativos de shoppings. A iniciativa prevê o lançamento de um fundo de captação estimada entre R$ 600 milhões e R$ 2 bilhões, sujeito à aprovação na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e às condições do mercado. A estratégia visa criar uma gestora especializada, na qual a Allos atuará como cotista e também como gestora de capital, em parceria com a Kinea, maior gestora de fundos imobiliários e de fundos alternativos do país.
O fundo terá como público-alvo tanto investidores pessoas físicas quanto institucionais interessados em exposição ao segmento de shoppings de forma tributariamente eficiente. Ainda sem uma data definida para o lançamento, o projeto depende da obtenção dos registros regulatórios e das condições de mercado favoráveis para sua implementação.
O programa “Call de Negócios” é uma produção do NeoFeed em parceria com a CNN Brasil, apresentado por Letycia Cardoso. Os episódios inéditos são exibidos quinzenalmente às 19h15 no canal CNN Money.