A combinação de juros altos e inadimplência recorde das famílias impõe um dilema ao próximo governo brasileiro, segundo análise do economista Fernando Fenólio, da gestora WHG. Durante a live Overview, dedicada a clientes, Fenólio destacou que o elevado custo do crédito e a deterioração do pagamento das dívidas representam desafios significativos para o setor privado, além de potencialmente ampliar riscos para investidores.
Dados divulgados pelo Banco Central nesta terça-feira (29) reforçam essa preocupação ao apontar que, em agosto, a inadimplência do Sistema Financeiro Nacional atingiu 5%, um novo recorde, com aumento de 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior e de 0,9 ponto percentual em 12 meses. Entre as pessoas físicas, a inadimplência subiu para 6%, também a maior da série histórica, enquanto nas empresas permaneceu estável em 3,3%. Apesar de o índice corporativo não ter aumentado no período, a análise da WHG indica uma pressão crescente sobre a capacidade das empresas de manter suas dívidas.
Fenólio explicou que parte do problema das empresas decorre das captações feitas quando a taxa Selic esteve em 2% ao ano, um período em que muitas companhias acreditavam que a taxa voltaria a níveis próximos de 8%. No entanto, a trajetória dos juros foi mais adversa do que o esperado, uma vez que muitas dessas dívidas são pós-fixadas e acompanham o CDI, que se elevou com a alta da taxa básica de juros, aumentando os pagamentos de juros e amortizações. Como resultado, as empresas estão desembolsando, em média, R$ 35 em juros e amortizações para cada R$ 100 de crédito tomado, o maior valor da série histórica. Entre as grandes companhias que acessam o mercado de capitais, esse índice chega a R$ 32, o nível mais elevado em 15 anos.
A ampliação do mercado de capitais, que passou a distribuir o risco de crédito entre fundos e investidores, também mudou o perfil de perdas relacionadas a inadimplência. Fenólio alertou que, diferentemente de 2015 e 2016, quando o calote das empresas impactava principalmente os bancos, atualmente os investidores que adquiriram títulos privados, como debêntures, também correm risco de perdas em caso de reestruturações de dívidas corporativas. Essa mudança amplia o potencial de impacto negativo para quem investe em títulos de crédito, tanto diretamente quanto por meio de fundos de investimento.
No âmbito das famílias, o endividamento total atingiu 49,9% em julho, mantendo-se estável em relação ao mês anterior, segundo dados do Banco Central. Esse percentual relaciona o estoque de dívidas à renda acumulada em 12 meses, sem indicar que metade da renda mensal seja dedicada ao pagamento de prestações. Além disso, a inadimplência no crédito pessoal não consignado concedido por fintechs atingiu 10,6%, um valor próximo ao pico registrado na recessão de 2015 e 2016, mas que hoje incide sobre uma base de crédito maior, elevando o volume de recursos expostos ao atraso.
Fenólio destacou que as dificuldades de pagamento de empresas e consumidores podem se agravar, uma vez que companhias com caixa pressionado tendem a reduzir investimentos e contratações. Caso haja perda de emprego ou diminuição de renda, a capacidade de pagamento dos consumidores também diminui, aumentando o risco de inadimplência. Para o especialista, o Brasil enfrenta um cenário de alta demanda por financiamento aliado à escassez de poupança interna, impulsionado principalmente pelas necessidades de financiamento do setor público, que elevam os custos de captação de recursos.
A evolução do crédito no país dependerá da condução da política econômica nos próximos anos. Juros elevados por um período prolongado aumentam o risco de renegociações e deterioração da capacidade de pagamento do setor privado. Por outro lado, um ajuste nas contas públicas, considerado essencial para reduzir a pressão sobre o financiamento da economia e promover uma queda sustentável dos juros, pode, no curto prazo, desacelerar a atividade econômica ao reduzir a renda disponível, afetando vendas e o nível de emprego.