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Brasil enfrenta desafios de competitividade em cenário de crise global e oportunidades estratégicas

•Ilustração gerada por IA

A partir de Nova York, onde ocorre a Semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, o cenário internacional evidencia um momento de tensão e transformação. Líderes mundiais reúnem-se para discutir temas críticos como guerras, segurança internacional, mudanças climáticas, transição energética, desenvolvimento sustentável e preparação para futuras pandemias. A ONU escolheu para esta sessão o tema de restaurar a confiança e administrar a transformação em um contexto de crescente fragmentação entre países e pressão sobre o sistema multilateral, refletindo a complexidade do momento global.

No âmbito econômico, o contraste entre as políticas monetárias de Estados Unidos e Brasil evidencia o ambiente de competição global. Na semana passada, o Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto percentual, estabelecendo a taxa entre 3,75% e 4%, em resposta à inflação ainda elevada. Em contrapartida, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto, para 13,75%, marcando o quinto corte consecutivo, embora tenha mantido uma postura cautelosa diante das incertezas externas, das pressões sobre energia e das expectativas inflacionárias. Essas decisões ilustram o cenário de custos de capital elevados, energias e alimentos vulneráveis a choques geopolíticos e climáticos, além de cadeias produtivas em reorganização por razões de segurança econômica. Nesse contexto, tecnologias digitais e inteligência artificial aceleram mudanças na natureza do trabalho e do comércio internacional.

No Brasil, esses fatores externos se encontram com desafios internos históricos, como o alto custo de capital, baixa previsibilidade fiscal e regulatória, investimentos limitados, baixa produtividade, gargalos de infraestrutura e dificuldades em transformar vantagens naturais e de escala de mercado em produtos de maior valor agregado. Problemas esses que explicam por que, apesar de crescimento econômico e avanços institucionais, o país enfrenta dificuldades de sustentar ciclos longos de investimento e aumento de produtividade. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,3%, mantendo a trajetória de crescimento em 2026, embora em ritmo menor.

O mercado de trabalho revela uma narrativa positiva, com taxas de desemprego em mínimas históricas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Além disso, rendimentos e massa salarial atingiram patamares elevados, o que deve ser avaliado em conjunto com indicadores de produtividade e empregabilidade. Não basta mais aumentar o número de pessoas empregadas; é fundamental ampliar o valor produzido por hora trabalhada e garantir que os trabalhadores tenham as habilidades necessárias para transitar entre os empregos em expansão.

A trajetória inflacionária brasileira também demonstra oscilações expressivas, com o IPCA atingindo 10,67% em 2015, caindo para menos de 3% em 2017, voltando a superar 10% em 2021 e encerrando 2025 em 4,26%. Os juros também passaram por variações significativas: há uma década, a taxa Selic ultrapassava 14%, caiu para 2% durante a pandemia e voltou a patamares elevados atualmente.

Apesar desses desafios, setores altamente competitivos permanecem no Brasil, como o agronegócio, que avançou em produtividade e mercados, além de áreas como mineração, energia, celulose, petróleo, aviação e serviços financeiros, que apresentam balanços comerciais positivos e superávits expressivos. Entretanto, há um paradoxo: o país possui ativos e setores competitivos, mas enfrenta dificuldades em converter esse potencial em ganhos disseminados de produtividade e competitividade para a economia como um todo.

A explicação principal reside na baixa produtividade, que ainda depende mais da expansão do trabalho e do uso de recursos do que de ganhos contínuos de eficiência. Apesar de avanços na agropecuária, que apresenta trajetória de produtividade superior à média, a maior parte do crescimento econômico brasileiro continua dependente do aumento de trabalho e recursos, não de melhorias na eficiência. Para transformar esses ativos em maior valor agregado, é necessário investir, o que depende de confiança, previsibilidade e capital. Quando o risco fiscal e institucional aumenta, o custo de investir no país também sobe, tornando projetos inviáveis e restringindo recursos para infraestrutura, inovação e expansão produtiva.

Outro aspecto relevante é a diversidade da pauta exportadora brasileira, que cresceu na última década, mas se concentrou em produtos primários e poucas cadeias produtivas. Essa concentração limita a sofisticação econômica, como indica o ranking do Atlas of Economic Complexity, do Growth Lab de Harvard, onde o Brasil ocupa posição abaixo do Vietnã, país que avançou na integração às cadeias globais de tecnologia e produção. O Brasil, por sua vez, perdeu diversidade e densidade em áreas relevantes de sua pauta exportadora.

Em um cenário global de insegurança energética, disputas tecnológicas e reorganização de cadeias produtivas, o Brasil detém ativos de alto valor estratégico, como alimentos, energia renovável, minerais críticos, biodiversidade, água, além de uma base industrial relevante e um grande mercado consumidor. A oportunidade reside em agregar maior valor a esses recursos e ocupar etapas mais sofisticadas das cadeias globais, o que exige investimentos em inovação, infraestrutura e maior previsibilidade macroeconômica.

O aumento do custo do capital, uma das principais restrições à competitividade, torna-se ainda mais premente diante de um mundo que passa por reconfiguração geopolítica, onde energia, minerais críticos, alimentos, inteligência artificial, fertilizantes e saúde assumem papel central na segurança econômica global. A agenda internacional, incluindo as reuniões de alto nível em Nova York, reforça essa interligação entre comércio, tecnologia, energia e segurança.

Para o Brasil, o desafio é ampliar sua participação nessas cadeias estratégicas, preservando acesso a mercados e transformando recursos naturais em produtos de maior valor agregado. Ter ativos não é suficiente; é preciso convertê-los em produtividade, tecnologia e novas competências. Assim, discutir competitividade vai além de questões pontuais, como a taxa de juros, e envolve criar condições para reduzir o custo de capital de forma estrutural, promovendo maior investimento, inovação e sustentabilidade econômica.

A estratégia passa por maior previsibilidade macroeconômica, melhorias na infraestrutura, segurança regulatória e qualificação da força de trabalho. A capacidade de transformar vantagens naturais e produtivas em investimentos de longo prazo é fundamental para que o Brasil possa evoluir de forma sustentável, gerando emprego, renda e crescimento duradouro. O foco central é conectar essas dimensões, de modo que a redução do custo de capital e o aumento do investimento se traduzam em maior produtividade, complexidade econômica e prosperidade para o país.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade