O Brasil está enfrentando uma nova onda de calor, com temperaturas que superam em média 5ºC os níveis habituais. Em resposta a essa situação, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta vermelho. Esse alerta, que se estende até a próxima segunda-feira (29), representa o nível máximo entre os três tipos de avisos emitidos pelo instituto: amarelo, que indica perigo potencial; laranja, para perigo; e vermelho, que sinaliza grande perigo.
Os estados do Rio de Janeiro e São Paulo estão completamente abrangidos pelo alerta vermelho, assim como a região norte do Paraná, que inclui cidades como Londrina e Curitiba; o sul de Minas Gerais, abrangendo Uberaba, Varginha e Juiz de Fora; o leste do Mato Grosso do Sul, como Três Lagoas; e o sul do Espírito Santo, principalmente em Cachoeiro de Itapemirim. Na sexta-feira (26), pela segunda vez consecutiva, São Paulo alcançou um recorde de calor para dezembro, atingindo 36,2ºC.
Nos últimos dias, o estado do Rio de Janeiro contabilizou mais de 2 mil atendimentos em postos de saúde relacionados a problemas provocados pelo calor. Somente na capital, mais de mil pessoas foram atendidas entre os dias 23 e 25 de dezembro, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.
Apesar de algumas regiões do Brasil estarem acostumadas a altas temperaturas e os brasileiros geralmente serem mais adaptados ao calor do que os europeus, a atual situação é especialmente preocupante devido à sua intensidade extrema. A exposição prolongada ao calor, especialmente entre 12h e 16h, pode provocar mudanças no organismo que comprometem a saúde, principalmente em grupos vulneráveis, como idosos, pessoas com doenças preexistentes e crianças.
O que ocorre quando o corpo enfrenta temperaturas extremas? Quando submetido a estresse térmico, ou seja, a temperaturas muito elevadas, o corpo humano inicia uma série de adaptações fisiológicas para manter a temperatura interna em equilíbrio. A primeira resposta do organismo ao calor é liberar calor através do suor e da dilatação dos vasos sanguíneos periféricos, permitindo a dissipação do calor para o ambiente.
Entretanto, em condições de calor extremo, especialmente quando a umidade também é alta, o mecanismo de resfriamento pelo suor pode falhar, resultando em superaquecimento, insolação e possíveis danos aos órgãos. “Com a exposição a temperaturas elevadas, o corpo passa por adaptações, como o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial”, explica Lucas Albanaz, clínico geral e coordenador da clínica médica do Hospital Santa Lúcia, em Brasília.
Outro risco significativo, conforme alertado pelo médico, é a desidratação, que ocorre devido ao aumento da sudorese. Os sintomas podem variar conforme a temperatura, incluindo câimbras (devidas à perda de eletrólitos através do suor), sede intensa e fadiga. “Sintomas mais sérios, como tontura, náuseas ou vômitos, podem surgir. Se a pessoa não conseguir controlar o calor, a situação pode evoluir para choque térmico, que pode resultar em confusão mental, convulsões e, em casos extremos, falência de múltiplos órgãos e morte”, esclarece Alexander Daudt, coordenador do Núcleo de Medicina de Estilo de Vida do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
Um relatório da revista científica “The Lancet” indica que, nos últimos 20 anos, a mortalidade associada ao calor excessivo em pessoas com mais de 65 anos aumentou em 53,7%. Na Europa, em 2022, foram registradas 61.672 mortes atribuídas ao calor entre 30 de maio e 4 de setembro, conforme análise publicada na “Nature Medicine”.
Os riscos são exacerbados para pessoas com doenças preexistentes, idosos com saúde debilitada, crianças (que estão em fase de desenvolvimento), trabalhadores expostos ao sol (como vendedores ambulantes) e aqueles que utilizam medicamentos que os tornam mais suscetíveis ao calor. “Pacientes que usam diuréticos, por exemplo, já têm uma perda maior de água e precisam redobrar os cuidados com a hidratação”, observa Daudt.
Como se proteger do calor extremo? “A principal recomendação é manter-se hidratado, o que deve ser feito principalmente por meio da ingestão de líquidos. Também é importante hidratar a pele com cremes, as narinas com soro fisiológico e os olhos com colírio, já que essas áreas também sofrem com o calor”, orienta Albanaz.
A seguir, apresentamos algumas dicas dos especialistas consultados e recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS):
Mantenha sua casa fresca: Tente que a temperatura fique abaixo de 32°C durante o dia e 24°C à noite, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. Aproveite a ventilação noturna abrindo janelas e cortinas à noite. Reduza a carga térmica interna mantendo as janelas fechadas durante o dia, desligando aparelhos elétricos e fechando cortinas.
Evite o calor: Busque os ambientes mais frescos da casa, principalmente à noite. Se sua residência não for fresca, considere passar algumas horas em locais com ar-condicionado, como prédios públicos. Evite sair durante as horas mais quentes do dia e evite exercícios físicos intensos.
Mantenha-se hidratado e fresco: Tome banhos frios e utilize compressas frias para aliviar o calor. Use roupas leves e soltas, incluindo chapéu e óculos de sol. Beba água regularmente e evite bebidas alcoólicas e cafeinadas, que podem aumentar a desidratação.
Cuide de outros: Verifique como estão familiares, amigos e vizinhos que são mais vulneráveis. Assegure-se de que todos na família saibam o que fazer em situações de calor extremo. Se tiver animais de estimação, evite passeios nos horários mais quentes.
Cuidados em caso de mal-estar: Procure ajuda se sentir tontura, fraqueza, sede intensa ou dor de cabeça. Beba água ou suco para reidratação. Em casos graves, como delírio, convulsões ou inconsciência, busque assistência médica imediatamente. Leve a pessoa para um local fresco, deite-a, eleve as pernas e inicie o resfriamento externo com compressas frias. Não administre medicamentos sem orientação médica.
Esta reportagem foi inicialmente publicada em novembro de 2023 e revisada em dezembro de 2025.