As empresas do setor de cartões de crédito e débito estão intensificando seus esforços para incorporar tecnologias de inteligência artificial (IA), buscando garantir sua relevância diante da rápida evolução dos pagamentos digitais. Após décadas de domínio do papel-moeda, os cartões se consolidaram como uma ponte segura e conveniente entre consumidores, bancos e comerciantes. No entanto, com o avanço da Era dos pagamentos digitais, uma nova etapa se apresenta, na qual agentes de IA prometem transformar radicalmente o modelo de negócios do setor.
Atualmente, Mastercard, Visa e Elo já deram os primeiros passos concretos na implementação de soluções que utilizam IA para intermediar transações, visando um futuro em que esses agentes digitais possam realizar compras de forma autônoma. Essas iniciativas visam posicionar as operadoras de cartão não mais apenas como meios físicos de pagamento, mas como a camada invisível onde as máquinas podem executar operações financeiras de maneira segura e eficiente. A previsão é de que, futuramente, assistentes de IA possam comparar preços, selecionar as melhores ofertas e concluir compras inteiramente sem intervenção humana.
Entretanto, especialistas do setor indicam que a adoção plena dessa tecnologia ainda enfrenta obstáculos culturais e de segurança. Executivos ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, destacam que a confiança do consumidor e a segurança das transações são fatores críticos para a disseminação dessa inovação. O vice-presidente de tecnologia da Elo, Eduardo Merighi, afirmou que a autonomia total, na qual o consumidor só percebe a compra ao receber o produto, ainda leva tempo para se consolidar, devido às questões culturais e à necessidade de construir confiança no sistema.
Historicamente, mudanças na tecnologia de adquirência, como a substituição da tarja magnética pelo chip e pelo pagamento por aproximação, levaram cerca de uma década para alcançar escala global. Essas transformações ocorreram com avanços tecnológicos que demandaram tempo para serem adotados de forma massiva, mesmo com uma tecnologia já desenvolvida há anos. Em contraste, a velocidade de adoção de soluções baseadas em IA tem sido significativamente maior, impulsionada por avanços recentes em plataformas como ChatGPT, Gemini e Claude, que transformaram a experiência digital de consumidores e empresas em apenas alguns anos.
Segundo Pablo Fourez, diretor digital da Mastercard, a velocidade de disseminação dessas tecnologias de IA deve ficar entre os extremos históricos, acelerando o ritmo de inovação no setor de pagamentos. Ele destaca que o momento de investir nessas soluções é agora, dado o potencial de transformação que elas representam para o comércio eletrônico e presencial.
No Brasil, o mercado se mostra particularmente promissor devido ao sucesso do Pix, sistema de pagamentos instantâneos que digitalizou rapidamente as transações financeiras no país. As principais bandeiras de cartões, como Elo, Visa e Mastercard, têm ampliado investimentos em iniciativas que envolvem IA. A Elo, controlada pelo Banco do Brasil, Bradesco e Caixa Econômica Federal, recentemente expandiu para cinco mil clientes uma ferramenta de agente de IA, desenvolvida em parceria com a agência de viagens Decolar, que realiza toda a jornada de compra de passagens aéreas, desde a busca até a transação, integrando canais como o WhatsApp. Ainda assim, a intervenção final do usuário na confirmação da compra permanece necessária.
Já as rivais Visa e Mastercard também têm avançado na implementação de testes no Brasil. A Visa, por exemplo, lançou um programa para certificar emissores e credenciadores na condução de transações realizadas por agentes de IA, utilizando atualizações de sistemas existentes, como APIs de tokenização e autenticação biométrica. Em março, a companhia anunciou uma parceria com a OpenAI para habilitar o comércio agêntico inicialmente nos Estados Unidos, com planos de eventual expansão ao Brasil, embora ainda sem uma previsão de quando essa tecnologia estará disponível no mercado brasileiro.
A Mastercard, por sua vez, concentra seus esforços no desenvolvimento do Agent Pay, uma infraestrutura que visa garantir maior segurança, autenticação e confiabilidade às transações realizadas por agentes de IA. Além de atender ao consumidor final, a empresa também trabalha na automação de pagamentos corporativos por meio do Agent Pay For Machines, permitindo que agentes de IA executem pagamentos de empresas de forma autônoma, conforme orçamentos pré-estabelecidos. Recentemente, a bandeira anunciou uma solução que adapta sites de lojistas para serem acessados por agentes digitais, ampliando a integração entre comércio eletrônico e inteligência artificial.
Com esses investimentos e inovações, o setor de cartões busca se posicionar na vanguarda de uma transformação que deve movimentar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões globalmente até 2030, segundo estudo da consultoria McKinsey & Company. A experiência bem-sucedida do Pix no Brasil reforça a perspectiva de que o país pode ser um dos mercados mais promissores para a adoção de pagamentos realizados por agentes de IA, consolidando uma nova fase na digitalização dos métodos de pagamento.