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Guerra no Oriente Médio eleva custos de financiamento e impacta mercados globais de títulos

•Um funcionário segura notas de dóla em uma casa de câmbio em Jacarta, Indonésia, em 9 de abril de 2025. REUTERS/Willy Kurniawan

As tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos e o Irã estão provocando uma escalada nos custos de financiamento nos mercados globais, especialmente no mercado de títulos de dívida dos EUA. Essa situação acende sinais de alerta, uma vez que a combinação de conflitos militares, aumento nos gastos de defesa e preços elevados de energia está alimentando uma onda de incertezas que afeta tanto o mercado de títulos quanto a economia mundial.

A recente retomada do conflito entre Washington e Teerã, que se intensificou após ataques e ações militares na região, tem causado um aumento significativo nos gastos militares dos EUA, além de pressionar para cima os preços do petróleo, gasolina, diesel e combustíveis de aviação. Esses aumentos nos custos de energia reforçam as preocupações com a inflação, num cenário já marcado por uma dívida pública americana que ultrapassa os US$ 40 trilhões. Como consequência, o rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos atingiu na quarta-feira, dia 2 de outubro, o maior nível em quase três anos, refletindo o aumento do custo de emprestar dinheiro ao governo americano.

Esse movimento de alta nos rendimentos dos títulos de dívida tem implicações diretas no custo de financiamento para consumidores, empresas e o próprio governo dos EUA. A elevação dos juros torna mais caro obter hipotecas, financiar projetos empresariais e pagar os juros da dívida pública, potencialmente desacelerando o crescimento econômico. Existe o risco de que esse ciclo se torne vicioso: quanto mais a guerra se prolonga e mais os mercados se assustam, maior a pressão para a alta dos rendimentos, o que pode levar a uma desaceleração econômica e à queda do mercado de ações.

Especialistas alertam que, no curto prazo, a inflação, o conflito e o déficit orçamentário parecem não ter solução. Hardika Singh, estrategista econômica da Fundstrat, destaca que o mercado de títulos de dívida possui um peso maior do que as ações, e que investidores ao redor do mundo demonstraram força ao movimentar seus recursos neste verão. Na Alemanha, o rendimento de títulos de 10 anos atingiu níveis não vistos desde 2011, enquanto no Reino Unido, os títulos de 30 anos chegaram ao maior rendimento desde 1998. No Japão, onde há uma recente explosão inflacionária após décadas de estabilidade, o rendimento dos títulos de dívida de 10 anos ultrapassou 3% pela primeira vez desde 1996.

Esses rendimentos elevados estão substituindo as ações como alternativa de investimento considerada de menor risco. O aumento dos juros torna difícil justificar avaliações elevadas de ações de tecnologia, que já operam com valuations históricos, pois a elevação dos custos de capital pressiona o mercado de ações.

Desde o início do conflito no final de fevereiro, quando o então presidente Donald Trump atacou o Irã, as autoridades americanas previam uma guerra de curta duração, medida em semanas. Entretanto, o conflito se estendeu por mais de seis meses, afetando o fluxo de energia na região do Golfo Pérsico, uma das áreas mais críticas do planeta. Essa prolongada instabilidade levou os investidores a reprecificarem os riscos relacionados à energia, inflação e títulos de dívida. Apesar de alternativas como o escoamento clandestino de petróleo pelo Golfo Pérsico e a redução das importações chinesas terem ajudado a limitar danos, os efeitos ainda são sentidos.

Dados recentes indicam que agosto foi o mês mais caro da história dos EUA para os preços da gasolina, segundo a AAA, com o diesel, combustível vital para a economia, tendo disparado 51% desde o início do conflito. Quanto mais a guerra se prolongar, maior será a pressão inflacionária e o aumento nos rendimentos dos títulos, que já estão elevados.

Para tentar conter esse movimento, o Federal Reserve pode ser obrigado a elevar ainda mais suas taxas de juros na reunião de política monetária prevista para este mês. O presidente do Fed, Kevin Warsh, mostrou-se mais aberto a essa possibilidade, enquanto analistas como Art Hogan, da B. Riley Wealth Management, afirmam que o mercado de títulos pode desacelerar sua reação de pânico quando o Fed sinalizar uma postura mais firme no combate à inflação.

Outro fator que agrava a situação é o custo crescente das guerras, que normalmente não estão previstos nos orçamentos nacionais. Os Estados Unidos, por exemplo, estão desembolsando bilhões de dólares adicionais com gastos militares devido ao conflito com o Irã, o que aumenta ainda mais o endividamento. Essa tendência é global, com países como Alemanha, Japão e Coreia do Sul elevando seus gastos com defesa frente às ameaças internacionais.

Segundo o estrategista-chefe global da JPMorgan Asset Management, David Kelly, o mundo parece ter entrado em uma fase de conflitos contínuos e dispendiosos, que representam uma carga financeira significativa. O aumento dos rendimentos dos títulos de dívida tende a desacelerar a economia ao elevar o custo do capital para empresas e consumidores. Nos EUA, esses efeitos se refletem no crescimento dos juros sobre a dívida nacional, que atingiu US$ 40 trilhões no mês passado, e nos elevados gastos com juros, que somaram US$ 931 bilhões no atual ano fiscal — valor superior aos US$ 804 bilhões destinados à defesa nacional.

A projeção da Peter G. Peterson Foundation indica que, na próxima década, os gastos líquidos com juros podem ultrapassar US$ 16 trilhões, aproximadamente três vezes o montante de dívidas de cartões de crédito, empréstimos estudantis e financiamentos de veículos. Esforços do governo, como a intervenção do secretário do Tesouro, Scott Bessent, que prometeu dobrar as recompras de títulos do Tesouro, tiveram efeito temporário e foram considerados fracassados por analistas, que afirmam que a medida não altera o problema estrutural do elevado déficit e da dívida pública.

Especialistas como Kelly alertam que a única maneira de provocar uma grande queda nos preços dos títulos seria uma recessão profunda, uma hipótese considerada como um cenário extremo. Enquanto isso, o aumento contínuo dos custos de energia e a prolongada instabilidade geopolítica permanecem como fatores que alimentam a escalada dos custos de financiamento globais, com efeitos que podem se estender por anos, impactando a economia mundial de forma duradoura.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade