O renomado filósofo francês Paul Valéry uma vez afirmou: “O mundo só tem valor pelos radicais e sobrevive graças aos moderados.” Em um contexto onde a polarização entre dois grupos extremos impede que algum deles se estabeleça como majoritário na visão do eleitor brasileiro, surge a necessidade e a viabilidade de uma terceira via que se distancie desses núcleos, desde que seja proposta com clareza de propósito, posição e mensagem.
Os eleitores estão exaustos de um governo que não provoca mudanças em suas realidades e de uma oposição que transforma o debate político em uma questão de personalidades, sem oferecer soluções para as dificuldades cotidianas. O desânimo e a falta de esperança são palpáveis, e a população anseia por alguém que traga uma nova perspectiva.
Uma pesquisa da Quaest, contratada pelo banco Genial, revela a disposição política do eleitorado nacional. 32% se identificam como independentes, representando quase um terço da amostra, somando-se a 14% que se consideram de esquerda, mas não lulistas, e 21% que se veem de direita, mas não bolsonaristas. Isso representa 67% dos entrevistados que estão distantes da polarização que dominou a última década, marcada por estagnações em avanços sociais e econômicos.
A grande questão é entender por que, nesse vácuo de representação, essas correntes minoritárias conseguem capturar a atenção sobre o futuro do Brasil, muitas vezes se apoiando mutuamente em uma interdependência que perpetua a apatia dos eleitores.
Preocupados com a violência, que é vista como o principal problema por 36% dos entrevistados, cada grupo fora da polarização manifesta uma segunda demanda em busca de uma combinação entre desenvolvimento econômico e justiça social. Entre os que se identificam com a esquerda não lulista, 28% expressam preocupação com questões sociais; enquanto, na direita não bolsonarista, 19% se preocupam com a economia e 21% com a corrupção. Há uma busca por um país que possa se desenvolver economicamente, mantendo um equilíbrio fiscal e não se esquecendo dos mais necessitados. Essa diversidade de demandas exige uma candidatura que não se alinhe a um dos polos, mas que se apresente de forma mais assertiva.
Dentre os possíveis candidatos que possuem algum tipo de ressonância, a maioria parece disposta a representar um dos lados da polarização. Lula, por exemplo, é um deles. Tarcísio de Freitas já demonstrou que só se lançará como candidato se contar com a bênção de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro representa um legado familiar. Ronaldo Caiado e Romeu Zema tentam, respectivamente, abordar questões de segurança e economia, sempre alinhados ao bolsonarismo. Até mesmo Ratinho Junior faz declarações que flertam com o ex-presidente, como lamentar sua prisão e criticar o poder judiciário.
Nesse cenário, apenas um dos postulantes se mantém fora da influência do bolsonarismo e do lulismo: Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e o único a ser reeleito na história do estado, que adota uma postura de imparcialidade, representando uma alternativa real ao embate entre os extremos.
Em 2022, quando Lula e Bolsonaro se confrontavam diretamente, Eduardo Leite tentou se posicionar como candidato à presidência, mas foi impedido por uma prévia interna de seu partido, o que acabou com suas chances de entrar na disputa. Após esse revés, enfrentou representantes do lulismo, Edegar Pretto, e do bolsonarismo, Onyx Lorenzoni, nas eleições estaduais, e saiu vitorioso.
Ao assumir o governo pela primeira vez, Leite herdou uma severa crise financeira da administração anterior, que havia adotado medidas extremamente impopulares, como o parcelamento de salários de servidores, e um desequilíbrio fiscal alarmante, que afetava diretamente a capacidade de investimento do estado.
Com uma política econômica eficaz, o governador gaúcho conseguiu, gradualmente, equilibrar as contas, implementar um plano de privatizações, concessões e reformas administrativas que restauraram a saúde financeira do Rio Grande do Sul. Essa gestão trouxe um alívio às contas públicas e possibilitou investimentos em programas sociais.
Testado pelas adversidades, Leite enfrentou o maior desastre ambiental da história do estado, com enchentes que afetaram quase 3 milhões de pessoas e devastaram cidades inteiras. Com competência, pouco mais de um ano após a tragédia, o estado tem se recuperado de forma surpreendente, considerando a magnitude do ocorrido.
Por meio de uma série de programas sociais, como o RS Social Recomeço, a vida está voltando ao normal, e Eduardo Leite mantém índices de aprovação favoráveis, com 62% conforme pesquisa da RealTime Big Data, contratada pela Rede Record, no início de dezembro.
Nos anos 90, a combinação de um estado de bem-estar social com políticas econômicas liberais marcou governos que transformaram estruturas ao redor do mundo. Tony Blair, no Reino Unido, por uma década, uniu políticas de mercado a investimentos sociais, reformando o estado britânico e promovendo avanços reais nas condições de vida da população. Bill Clinton, nos EUA, reformou a previdência social, criou um novo marco na saúde pública e incentivou acordos de livre comércio, equilibrando as demandas de democratas e republicanos, o que resultou em um período de recuperação após um governo contestado de George Bush pai. Na Alemanha, a coalizão vermelho-verde combinou o que havia de melhor nas pautas sociais e econômicas, implementando a agenda 2010 sob a liderança de Gerhard Schröder.
Com 54% dos brasileiros afirmando que não votariam em Lula e 60% em Jair Bolsonaro, há um amplo espaço para que alguém se posicione como uma alternativa genuína para superar essa polarização. Uma candidatura corajosa, disposta a propor um choque que una avanços sociais e uma agenda econômica proativa, é essencial para que o Brasil enfrente seus principais desafios.
Eduardo Leite pode ser essa moderação, com um histórico que o distingue como alguém que não se alinha a nenhum dos dois polos, e por sua trajetória administrativa que se alinha a essa lógica. Contudo, é fundamental que ele se disponibilize para esse debate e o faça com determinação, abrindo espaço para uma conversa com uma população que não deseja, mas precisa ouvir. Existe uma oportunidade de mudança, e entre todos os candidatos, Leite é quem reúne o maior número de atributos para representá-la.
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