A avaliação médica realizada pelo Instituto Nacional de Criminalística acerca da saúde de Jair Bolsonaro (PL) revelou que o ex-presidente apresenta hérnia inguinal bilateral, necessitando de intervenção cirúrgica para tratamento.
🔎 A hérnia inguinal, popularmente conhecida como hérnia na virilha, ocorre quando os tecidos do abdômen se projetam através de um ponto vulnerável na parede muscular abdominal, formando um abaulamento visível. Quando essa condição se manifesta em ambos os lados, é classificada como bilateral (detalhes a seguir).
Essa condição pode provocar inchaço, dor ou desconforto, especialmente durante atividades físicas, ao tossir ou ao permanecer em pé por longos períodos — embora, em algumas situações, possa não apresentar sintomas.
Os especialistas também examinaram os soluços persistentes de Bolsonaro, uma das principais preocupações de saúde do ex-presidente. A conclusão foi de que o bloqueio do nervo frênico é uma alternativa tecnicamente viável e deve ser realizado o quanto antes, considerando a ineficácia dos tratamentos já tentados, a deterioração do sono e da alimentação, além do aumento do risco de complicações relacionadas à hérnia devido à elevação da pressão abdominal.
O bloqueio do nervo frênico consiste em um procedimento que diminui temporariamente a atividade do nervo responsável pelo controle do diafragma, ajudando a interromper os soluços persistentes. Esse procedimento é realizado com anestesia local, através da aplicação de um medicamento próximo ao nervo, geralmente com auxílio de ultrassom. É indicado apenas quando os soluços não respondem a tratamentos convencionais e impactam significativamente a saúde.
Explorando a hérnia e as possibilidades cirúrgicas
A hérnia inguinal unilateral ocorre quando uma parte do intestino encontra uma abertura ou um ponto fraco na parede abdominal da virilha e começa a se projetar para fora. O cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP, explica que para compreender essa condição, é necessário visualizar a construção da parede abdominal na região inguinal.
O abdômen é composto por várias camadas: a pele, a gordura, a musculatura e, logo abaixo, uma membrana rígida chamada aponeurose, que atua como uma “armadura” para proteger os órgãos internos. Atrás dessa camada existe o peritônio, uma fina película que reveste a parte interna do abdômen, permitindo que o intestino se mova livremente, sem atrito. Esse movimento é essencial para a digestão e também é favorecido por atividades cotidianas como caminhar, respirar ou mudar de posição.
Os problemas surgem quando essas camadas são rompidas, seja por cirurgias anteriores ou traumas. Cada vez que uma operação atravessa essas camadas, o corpo forma cicatrizes internas, conhecidas como aderências, que podem causar a “grudação” de partes do intestino entre si ou com a parede abdominal.
Essas aderências podem comprometer o trânsito intestinal e, com o tempo, enfraquecer a aponeurose. Como essa membrana é fundamental para limitar o espaço do intestino, qualquer perda de resistência facilita a projeção do intestino para fora. Assim, na hérnia, o intestino busca qualquer abertura e se estende para fora. Em alguns casos, pode ocorrer o encarceramento, onde a alça do intestino passa por um espaço estreito e fica presa, sem conseguir retornar à cavidade abdominal. Na hérnia inguinal, essa projeção ocorre no assoalho pélvico e pode até descer em direção ao escroto.
Quando a região abdominal já foi submetida a muitas intervenções, como no caso do ex-presidente, as aderências e fibroses podem tornar o tecido mais rígido e irregular. Isso dificulta a circulação normal do intestino e sua acomodação na cavidade, o que pode contribuir para sintomas como soluços persistentes.
O sistema digestivo funciona como um tubo contínuo, desde a boca até o ânus, e qualquer comprometimento no trânsito intestinal pode ter repercussões em outras áreas, incluindo o diafragma, onde os soluços são desencadeados.
Alternativas cirúrgicas para o tratamento
A correção da hérnia pode ser realizada por meio de videolaparoscopia ou cirurgia aberta. Na videolaparoscopia, o cirurgião utiliza uma câmera para soltar as aderências internamente, reposicionar o intestino na cavidade e aplicar uma tela de malha que reforça a aponeurose, funcionando como uma “costura interna”. Essa tela promove a fibrose e evita que o intestino volte a se projetar para fora.
Já a cirurgia aberta, frequentemente indicada para casos mais complexos, possibilita ao cirurgião soltar manualmente as alças encarceradas, reforçar os músculos e a aponeurose, e, se necessário, colocar uma tela para oferecer maior sustentação.
De forma simplificada, a hérnia pode ser comparada a uma porta que se abre em um ponto fraco da parede abdominal, permitindo que parte do intestino saia. A cirurgia consiste em recolocar essa parte para dentro da cavidade e fechar a abertura de maneira segura.
Para o ex-presidente, a combinação de múltiplas cirurgias, cicatrizes internas e a interrupção da continuidade dos tecidos protetores aumenta a probabilidade do surgimento dessas aberturas e pode interferir no funcionamento normal do intestino, fatores que ajudam a elucidar tanto a hérnia quanto os episódios de soluços persistentes.