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Sessão da Fiocruz revisita projeto da Unesco para a Amazônia oito décadas depois

O ciclo Encontro às Quintas realizará, em 5 de novembro de 2026, uma discussão sobre o projeto do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica (IIHA), iniciativa apresentada pela Unesco no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Com o título “Qual Amazônia? A Unesco e o projeto do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica 80 anos depois”, a sexta sessão ocorrerá às 10h, no Salão de Conferências Luiz Fernando Ferreira, no Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), localizado no campus da Fiocruz Manguinhos, no Rio de Janeiro.

A mesa reunirá os pesquisadores Iane Maria da Silva Batista, da Universidade Federal do Pará (UFPA), Rômulo de Paula Andrade e André Felipe Cândido da Silva, ambos vinculados à Casa de Oswaldo Cruz, unidade da Fiocruz. O historiador Nelson Sanjad, do Museu Paraense Emílio Goeldi e da UFPA, participará como debatedor. A coordenação será de Marcos Chor Maio, também da Casa de Oswaldo Cruz.

Ciência, Estado e projetos de ocupação

O debate terá como foco a maneira pela qual conhecimentos científicos, decisões estatais e correntes ideológicas influenciaram os planos de ocupação econômica da Amazônia. A proposta é recuperar os projetos formulados ao longo do século 20 e observar como eles ajudaram a construir interpretações sobre a região, seus recursos naturais e as populações que nela vivem.

Apresentado pela Unesco no contexto do pós-guerra, o IIHA passou a ocupar lugar importante nas disputas envolvendo ciência, desenvolvimento e soberania amazônica. A iniciativa também esteve relacionada à formação de um imaginário nacionalista segundo o qual a região estaria sob ameaça constante da chamada “cobiça internacional”. A sessão pretende ampliar essa leitura ao relacioná-la às políticas brasileiras de planejamento territorial e econômico.

Nesse contexto, a criação da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) será analisada como parte de um processo marcado pela circulação internacional de ideias sobre desenvolvimento e organização do território. Os pesquisadores discutirão a política de valorização econômica implementada durante os anos 1950 e seus vínculos com o projeto do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica.

Também estarão em pauta os discursos produzidos pelo Estado a respeito dos recursos naturais e dos habitantes da Amazônia. Em diferentes formulações, as populações locais foram associadas ao chamado “atraso” regional. A análise buscará mostrar como determinadas noções de progresso contribuíram para orientar políticas públicas e projetos de ocupação econômica.

Redes de pesquisa e Guerra Fria

Outro eixo da sessão será a permanência dessas experiências nas redes de pesquisa relacionadas ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) durante a Guerra Fria. Essas articulações se desenvolveram em um ambiente de tensão entre cooperação internacional e defesa da soberania nacional.

Segundo a perspectiva proposta para o encontro, as redes ajudaram a consolidar a ideia da Amazônia como um bioma estratégico para processos planetários ligados à água, à biodiversidade e ao clima. Ao mesmo tempo, os conhecimentos produzidos nesses circuitos passaram a oferecer argumentos para a crítica ambiental aos projetos desenvolvimentistas formulados para a região.

Pesquisadores participantes

Iane Maria da Silva Batista é professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na Amazônia e da Faculdade de Arquivologia da UFPA. Suas pesquisas e atividades de extensão abrangem memória, cultura e patrimônio, história da Amazônia e informação ambiental. Entre os livros que organizou estão História, natureza e ciência, publicado pela Editora Cabana em 2023 em parceria com David Durval Jesus Vieira, e Arquivos, documentos e sociedade: formação, trajetória e uso dos acervos documentais, lançado pela mesma editora em 2021 com Leonardo da Silva Torii.

Historiador e pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, Rômulo de Paula Andrade trabalha com história da saúde pública, da ciência e do desenvolvimento no Brasil, especialmente com a trajetória da Amazônia no século 20. Ele assina o capítulo “Um plano de alimentação racional para a Amazônia da Era do Desenvolvimento”, publicado em 2025 no livro História das ciências na floresta: circulação de saberes e projetos para a Amazônia brasileira, da UFAM. Em 2026, publicou com Matheus Villani Cordeiro o artigo “O discurso intelectual e o projeto nacional para a Amazônia nas páginas da Revista Brasileira de Geografia e da Cultura Política (1939-1945)”, no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi.

André Felipe Cândido da Silva, também da Casa de Oswaldo Cruz, pesquisa a história transnacional dos conhecimentos sobre ecologia, clima, biodiversidade e saúde no Brasil do século 20. Seu trabalho enfatiza as relações do país com a Alemanha e os Estados Unidos. Entre suas publicações estão o livro A diplomacia cultural alemã e o centenário da Independência do Brasil em 1922, lançado pela Pimenta Cultural em 2023, e o artigo “History, disease, and ecology after COVID-19: multispecies entanglements in the planetary age”, publicado em 2024 nos Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical.

Debatedor da sessão, Nelson Sanjad é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e curador das Coleções Documentais Históricas. Ele também leciona nos programas de pós-graduação em Diversidade Sociocultural, do Museu Goeldi, e em História Social, da UFPA. Entre seus trabalhos estão os livros A viagem circular de Paul Le Cointe (1900-1901), organizado com Emilie Stoll e Heloisa Maria Bertol Domingues e publicado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi em 2024, e Daquela estrela à outra: cartas a Maria Sylvia Nunes, organizado com Andréa Sanjad e lançado pela Guardaletras em 2021.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade