A XII Escola de Modelagem Molecular de Sistemas Biológicos reuniu mais de 500 participantes de diferentes regiões do Brasil entre 24 e 28 de agosto de 2026, no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Realizado geralmente a cada dois anos, o evento se consolidou como um dos principais espaços nacionais de formação, intercâmbio científico e integração entre pesquisadores que atuam com modelagem e dinâmica molecular de sistemas biológicos.
A trajetória da Escola também é marcada pela formação de pesquisadores que passaram a atuar na área e, posteriormente, retornaram ao evento como orientadores, palestrantes ou participantes. Um dos exemplos é o pesquisador da Fiocruz Paulo Ricardo Batista. Em 2006, quando ainda cursava o mestrado, ele conheceu na Escola o professor David Perahia, que mais tarde se tornaria seu orientador de doutorado na França.
O contato deu origem a uma colaboração científica duradoura. Segundo Batista, a parceria resultou em novas teses em cotutela, publicações e outras iniciativas de cooperação. Em 2026, ele acompanhou uma experiência semelhante vivida por seu aluno de doutorado, Yago Ferreira e Silva, que realizou um estágio doutoral na França.
Para Batista, a contribuição da Escola ultrapassa a transmissão de conteúdos técnicos. O evento também favorece a criação de vínculos entre estudantes e pesquisadores de diferentes instituições, conexões que podem influenciar trajetórias acadêmicas e permanecer ao longo de muitos anos.
Evento combina formação teórica e atividades práticas
A programação da XII edição foi dividida entre palestras realizadas pela manhã e atividades práticas no período da tarde. Os participantes tiveram acesso a minicursos sobre diferentes ferramentas e abordagens computacionais utilizadas na modelagem molecular. A programação também incluiu a apresentação de mais de 150 pôsteres, espaço destinado à divulgação de trabalhos e ao contato direto entre estudantes e especialistas.
Um dos temas centrais desta edição foi a aplicação da inteligência artificial à modelagem molecular. A discussão reflete a expansão do uso de métodos de aprendizado de máquina para acelerar e aperfeiçoar simulações de sistemas biológicos, área que vem incorporando novas estratégias computacionais ao estudo de proteínas, vírus e outras biomoléculas.
A modelagem molecular tem importância estratégica para a saúde pública porque permite simular, em ambiente computacional, a estrutura e o comportamento de moléculas envolvidas em processos biológicos e doenças. Essas análises contribuem para a compreensão de mecanismos patológicos e podem acelerar o desenvolvimento de fármacos, vacinas e outras soluções terapêuticas, com redução de custos e do tempo necessário em comparação com métodos tradicionais.
A Fiocruz reúne pesquisadores de destaque nesse campo, e o Programa de Computação Científica (PROCC) é apontado como referência nacional em modelagem e dinâmica molecular aplicadas a problemas de saúde. O programa também está ligado à continuidade da Escola: o atual coordenador do PROCC, Ernesto Caffarena, esteve à frente da organização de todas as edições do evento.
Crescimento amplia a relevância nacional da Escola
Para Caffarena, a evolução no número de participantes demonstra a consolidação da iniciativa. De acordo com o coordenador, a Escola passou de menos de uma centena de participantes para um público que atualmente varia entre 500 e 600 pessoas, com vagas disputadas por estudantes e interesse crescente de pesquisadores convidados.
O evento, que já contou inclusive com palestrantes internacionais, tornou-se uma referência nacional na área ao longo de aproximadamente 20 anos. A expansão também é percebida pelo interesse de especialistas em participar da programação como palestrantes, além da procura dos estudantes pelas vagas disponíveis.
Outro pesquisador cuja trajetória está ligada à Escola é Maurício Costa. Ainda na graduação, em uma das primeiras edições, ele identificou o interesse pela modelagem molecular e decidiu seguir carreira na área. Atualmente, Costa é pesquisador do PROCC e acompanhou, na XII edição, o reconhecimento de sua orientanda, a mestranda Larissa de Oliveira Bastos.
Larissa recebeu o segundo lugar no Prêmio Paulo Mascarello Bisch de melhor pôster, na categoria Pós-Graduação. O trabalho premiado, intitulado “Dinâmica estrutural integrativa: amostragem conformacional guiada por dados experimentais de SAXS e Cryo-EM”, foi apresentado durante a programação da Escola.
Para a estudante, a premiação representa mais do que um reconhecimento acadêmico. Formada em Física, ela destacou a satisfação de integrar conhecimentos da área à saúde e atribuiu o resultado ao tempo dedicado aos estudos e ao trabalho. Larissa também relatou que trabalha desde a adolescência para custear sua formação e que é a primeira mulher de sua família a romper o ciclo do trabalho doméstico.
O prêmio teve significado especial por ocorrer no mesmo evento que influenciou a trajetória de seu orientador. Costa afirmou que a Escola abre oportunidades para estudantes de todo o país e disse sentir orgulho ao ver Larissa reconhecida por um trabalho que considera sólido.
Formato híbrido amplia o acesso à formação científica
A pandemia de Covid-19 provocou uma mudança importante no modelo de realização da Escola. A edição prevista para 2020 foi adiada para 2021 e ocorreu, pela primeira vez, de forma totalmente remota, reunindo cerca de 900 estudantes. Desde então, o evento passou a adotar o formato híbrido.
A combinação entre atividades presenciais e participação remota ampliou o alcance da iniciativa. O modelo permite que estudantes sem condições de arcar com custos de deslocamento e hospedagem acompanhem a programação a distância. Ao mesmo tempo, possibilita a participação de um número maior de pessoas, já que a quantidade de vagas presenciais é limitada pela capacidade do local.
Segundo Batista, a participação remota é especialmente importante para democratizar o acesso à formação científica. O formato preserva a interação presencial, considerada fundamental para a criação de redes de colaboração, e permite alcançar estudantes de diferentes regiões do Brasil.
Da participação de Paulo Batista e Maurício Costa nas primeiras edições à premiação de Larissa Bastos em 2026, a Escola de Modelagem Molecular de Sistemas Biológicos mantém uma trajetória associada à formação de novas gerações de pesquisadores. Além de oferecer capacitação, o evento aproxima grupos de pesquisa, estimula parcerias e fortalece a rede científica que sustenta a modelagem molecular aplicada à saúde no país.
Na imagem de arquivo pessoal de Paulo Batista, aparecem os organizadores da Escola, da esquerda para a direita: Pedro Pascutti, Manuela Leal da Silva, Laurent Dardenne, Ernesto Caffarena, Isabela Guedes, Paulo R. Batista e Maurício Costa.
Em outra imagem, o grupo se reúne ao final da XII Escola de Modelagem Molecular de Sistemas Biológicos. Larissa Bastos e Maurício Costa também aparecem juntos durante a cerimônia de premiação. Os registros foram cedidos pelos arquivos pessoais de Paulo Batista e Larissa Bastos.