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Oficina da Fiocruz leva estudantes a investigar conexões entre saúde, ambiente e território

Quarenta e seis estudantes do ensino médio participaram, em 28 de outubro de 2026, de uma oficina da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) dedicada ao conceito de Uma Só Saúde. Realizada no Centro de Recepção do Museu da Vida, no Rio de Janeiro, a atividade propôs uma investigação sobre como as condições ambientais, os modos de vida e as características dos territórios interferem na saúde de pessoas, animais e ecossistemas.

Com o título “Uma Só Saúde: descobrindo as conexões do território”, a oficina integrou a programação da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) na Fiocruz. O evento institucional ocorreu entre 26 de outubro e 1º de novembro, com atividades realizadas em nove estados.

Os participantes foram distribuídos em dois grupos de 23 estudantes e, posteriormente, organizados em equipes de cinco a seis integrantes. Durante a dinâmica, eles assumiram o papel de investigadores para observar paisagens, identificar seres vivos e levantar hipóteses sobre problemas sociais, ambientais e de saúde presentes nos locais onde vivem.

A abordagem de Uma Só Saúde parte do princípio de que a saúde humana, a saúde animal e o equilíbrio ambiental são dimensões interligadas. Mudanças na qualidade da água e do solo, na vegetação, na fauna e nas condições climáticas podem afetar diretamente as populações. Da mesma forma, atividades humanas podem modificar os ecossistemas e produzir consequências para animais, plantas e microrganismos.

Esse conceito é utilizado na análise de situações como zoonoses, contaminação da água e dos alimentos e efeitos das mudanças climáticas. Como esses problemas envolvem diferentes dimensões, a resposta depende da cooperação entre profissionais da saúde humana, da saúde animal, do meio ambiente e de outras áreas, em diálogo com as comunidades atingidas.

A abordagem é reconhecida internacionalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH).

Atividade aproximou ciência de situações vividas pelos alunos

A maior parte dos estudantes ainda não conhecia a expressão Uma Só Saúde antes da oficina. Ao longo da atividade, porém, os grupos relacionaram elementos observados nos territórios a questões que fazem parte do cotidiano. Entre os temas discutidos estavam as consequências de problemas de saneamento para a proliferação de vetores de doenças, os efeitos do desmatamento e do uso de agrotóxicos sobre animais e plantas e os impactos das queimadas na saúde humana.

Os alunos também analisaram de que maneira fatores ambientais, sociais e climáticos podem influenciar a vida de pessoas, animais domésticos e silvestres, plantas e microrganismos. Ao compartilhar experiências de seus próprios territórios, conseguiram aproximar o conteúdo científico de situações concretas e reconhecer relações que nem sempre são percebidas quando a saúde é observada de maneira isolada.

Para Izabel dos Reis, a dinâmica evidenciou a capacidade dos estudantes, com idades entre 15 e 17 anos, de identificar problemas sociais e de saúde a partir da observação do espaço em que vivem. A atividade também reforçou que essas questões não devem ser examinadas exclusivamente sob a perspectiva humana, ambiental ou animal, mas a partir das relações entre todos esses componentes.

A oficina foi desenvolvida pelo Programa de Computação Científica (PROCC) e conduzida por pesquisadoras e estudantes de pós-graduação vinculados ao projeto Síntese para Uma Só Saúde na Amazônia (SESAM). A equipe contou com Claudia Codeço, pesquisadora do PROCC e coordenadora do SESAM; Izabel dos Reis, pós-doutoranda do PROCC e integrante da gestão do projeto; Tatiana Nascimento Docile, professora do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-UERJ); Thainá Cerqueira, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz); e Thais Almeida Duarte, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Biologia (ProfBio/Uerj).

Segundo Claudia Codeço, a iniciativa integra um conjunto de ações de divulgação e promoção do tema. A proposta é contribuir para que a saúde seja compreendida de forma abrangente, considerando simultaneamente as condições humanas, animais e ambientais.

Projeto investiga relações entre biodiversidade e saúde na Amazônia

Financiado pelo Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o SESAM reúne pesquisadores, gestores e estudantes de mais de dez instituições. Além de Claudia Codeço, o projeto é coordenado por Paulo D’Andrea, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

A iniciativa busca reunir e sintetizar conhecimentos sobre as conexões entre biodiversidade, serviços ecossistêmicos, socioeconomia e saúde pública em áreas protegidas e territórios coletivos da Amazônia. O objetivo é contribuir para a formulação de políticas públicas orientadas pela abordagem de Uma Só Saúde.

Entre as frentes de trabalho está o aprimoramento da capacidade de prever a vulnerabilidade de populações a zoonoses. O projeto também pretende transformar informações produzidas a partir de dados científicos e saberes locais em conteúdos acessíveis a gestores e comunidades.

Na Amazônia, a integração entre saúde e ambiente ganha relevância diante da presença de florestas, rios e ampla biodiversidade, além da diversidade de comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e urbanas. Desmatamentos, queimadas, mudanças no uso da terra e alterações nos rios e na fauna podem elevar a exposição a doenças, comprometer a segurança alimentar e afetar os modos de vida das populações.

Ao todo, a 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na Fiocruz reuniu 185 atividades, entre ações de formação, exposições, oficinas, teatro e rodas de conversa. Com o tema “Ciência delas”, definido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a programação também destacou os desafios relacionados à equidade de gênero na ciência brasileira.

Informações sobre o projeto SESAM estão disponíveis no site do CNPq: https://www.gov.br/cnpq/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/sinbiose-1/projetos/sesam

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade