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Estudante de Pernambuco vence concurso literário da Fiocruz com narrativa sobre racismo e cuidado

A estudante Jennifer França, da Escola de Referência em Ensino Médio José Mário Alves da Silva, em Pernambuco, venceu o 4º Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil, promovido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O texto premiado foi apresentado na manhã de terça-feira (27/10), no auditório do Museu da Vida Fiocruz, durante a abertura da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) da instituição.

A narrativa é escrita em primeira pessoa e assume o formato de uma carta destinada à mãe da autora, já falecida. No texto, Jennifer aborda a trajetória de uma mulher que enfrentou dificuldades para criar os filhos depois de ser abandonada pelo pai das crianças. A estudante também trata das marcas do racismo e das desigualdades que atravessam o trabalho de cuidado.

A produção dialoga com o conceito de escrevivência, desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo. A ideia está relacionada à construção de narrativas a partir das experiências vividas, especialmente de grupos historicamente silenciados. No início do texto vencedor, Jennifer escreve sobre a leitura da obra de Evaristo e sobre o impacto de se reconhecer nas histórias apresentadas pela autora.

“Ando lendo e sofrendo na escrita de Conceição Evaristo. Ela fala sobre a gente. Se eu pudesse, mudaria o fim de alguns contos que li, seria bom um fim feliz. Eu, como leitora e menina negra, sofreria menos”, afirma o trecho que abre a narrativa.

Jennifer contou que associou imediatamente o tema do concurso à história de sua mãe, cuja morte foi descrita por ela como uma experiência dolorosa. A possibilidade de escrever sobre essa trajetória, segundo a estudante, permitiu preservar a presença da mãe em sua própria formação.

“A perda da minha mãe foi muito dolorosa. Mas, quando vi essa oportunidade de escrever sobre ela, me perguntei: por que não? Por que não falar de uma mulher que cuidou de mim e que abriu espaço para que eu fosse seguindo? Ela hoje não está mais presente, mas eu sigo com ela”, relatou.

A autora também recebeu apoio do Clube Nzinga, um clube de leitura antirracista criado pela professora Nivia Cruz. A docente incentivou Jennifer a participar do concurso e acompanhou o processo de produção do texto.

Para Adriano da Silva, diretor do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz), a produção da estudante evidencia o papel da arte e da criatividade na reflexão sobre problemas sociais. “Escritas como a de Jennifer nos fazem refletir sobre como a criatividade, a arte e a consciência dos nossos desafios coletivos são antídotos poderosos para os problemas que herdamos do passado, e que persistem fortes no presente”, afirmou.

O diretor também destacou que os textos selecionados pelo concurso revelam o envolvimento dos jovens com questões relevantes para o país. “Os textos vencedores do concurso Portinho Livre nos dão um sopro de esperança sobre futuros possíveis para o país, ao revelarem uma juventude muito potente e engajada. Em tempos de obscurantismo, conhecer pessoas como a Jennifer nos restitui a confiança no que é o Brasil de verdade”, declarou.

Concurso premiou estudantes de três estados

O segundo lugar do 4º Concurso Portinho Livre ficou com Alice de Jesus Lima Campos, de Feira de Santana, na Bahia. Sofia Lorena Silva Araújo, de Paraíso do Tocantins, no Tocantins, conquistou a terceira colocação.

As autoras que ficaram entre as três primeiras colocadas receberão um cartão-presente de R$ 1 mil. O mesmo valor será destinado às professoras indicadas no momento da inscrição das estudantes.

Além da premiação, o concurso prevê a publicação de uma coletânea com textos escolhidos pela banca avaliadora, formada por profissionais da Fiocruz. Nesta edição, a qualidade e a diversidade das produções fizeram com que a quantidade de trabalhos selecionados para o livro aumentasse de 30 para 40.

As narrativas reunidas abordam diferentes aspectos do cuidado e das desigualdades sociais. Entre os temas discutidos estão a divisão do trabalho doméstico entre homens e mulheres, a sobrecarga enfrentada por cuidadoras, as condições de trabalho das trabalhadoras domésticas e as dificuldades vividas por famílias responsáveis pelo cuidado de pessoas idosas ou com deficiência.

Os estudantes também refletem sobre as desigualdades de raça e gênero e sobre a necessidade de políticas públicas capazes de transformar as condições em que o cuidado é realizado. Dessa forma, a coletânea amplia o debate sobre saúde, direitos sociais e relações familiares a partir da perspectiva de jovens autores.

Premiação integrou programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

O Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil é uma iniciativa do Icict/Fiocruz, com incentivo da Fundação de Apoio à Fiocruz (Fiotec). A ação integra o projeto SUS nas Escolas, que promove o diálogo entre saúde, educação e sociedade.

O projeto trabalha com uma compreensão ampliada da saúde, entendida não apenas como ausência de doenças, mas também como um direito construído coletivamente. Nesse contexto, a literatura é utilizada como instrumento para estimular a reflexão sobre desigualdades, relações sociais e políticas públicas.

A cerimônia de premiação ocorreu durante a abertura da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da Fiocruz. A programação segue até 1º de novembro, com atividades realizadas em nove estados brasileiros.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia tem como tema “Ciência delas”, proposto pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A programação inclui ações de divulgação científica, oficinas, exposições e atividades educativas.

Na cerimônia, além de Jennifer França, estiveram presentes Juliana Krapp, coordenadora da Portinho Livre; Adriano da Silva, diretor do Icict; Nivia Cruz, professora; Mel Bonfim, coordenadora do SUS nas Escolas; e Cristiane Sendim, representante da Fiotec.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade