A temporada de divulgação dos resultados do terceiro trimestre das principais instituições financeiras do Brasil teve início nesta semana, com foco especial na qualidade dos ativos do setor bancário. Investidores permanecem atentos ao elevado nível de endividamento das famílias brasileiras, à alta inadimplência e às possíveis medidas macroprudenciais que o Banco Central pode implementar para conter o crescimento do crédito e mitigar riscos financeiros.
Segundo análise da equipe do UBS BB, liderada pelo analista Thiago Batista, a comunicação que os bancos irão transmitir aos investidores durante suas conferências de resultados será tão relevante quanto os números propriamente ditos. Isso porque a maioria das divulgações ocorrerá após o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para o próximo domingo, o que pode influenciar as percepções de mercado e as estratégias das instituições financeiras.
No cenário recente, as ações dos maiores bancos brasileiros tiveram forte valorização após o primeiro turno da eleição presidencial, realizado em 2 de outubro. O resultado mostrou o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), alimentando a expectativa de uma possível mudança na política econômica e nos resultados fiscais do país. No pregão do dia 5 de outubro, o BTG Pactual Unit disparou 22,52%, o Bradesco PN avançou 13,57%, o Banco do Brasil subiu 11%, o Itaú Unibanco PN registrou alta de 10,37% e o Santander Brasil Unit fechou com um incremento de 2,63%. Nesse mesmo dia, o índice Ibovespa, principal referência do mercado acionário brasileiro, encerrou com alta de 7,7%.
Dados do Banco Central divulgados no final de setembro indicaram que a inadimplência no segmento de recursos livres atingiu 6,6% em agosto, o maior patamar da série histórica iniciada em março de 2011. Em julho, esse índice havia ficado em 6,4%. A alta da inadimplência reforça o cenário de preocupação com a saúde financeira do setor, especialmente diante do aumento do endividamento das famílias e da possibilidade de adoção de medidas macroprudenciais pelo Banco Central, como elevação das exigências de capital, aumento dos compulsórios, mudanças no IOF e implementação do Adicional Contracíclico de Capital Principal (ACCP Brasil).
O Banco do Brasil, por sua vez, é considerado o principal foco de atenção dos analistas do setor devido à sua maior vulnerabilidade. A equipe do BTG Pactual, liderada por Eduardo Rosman, apontou que, apesar do potencial de melhora de confiança decorrente de uma mudança de governo, o banco apresenta fraquezas operacionais que merecem cautela. Em relatório divulgado em 19 de outubro, os analistas destacaram que a magnitude do aumento das provisões no terceiro trimestre ainda é incerta. Com maior concentração de vencimentos de empréstimos no agronegócio e sem sinais de melhora na pontualidade dos pagamentos, as provisões do BB podem crescer entre dígitos altos e baixos de dois dígitos na comparação trimestral.
Além disso, o JPMorgan, em relatório do dia 6 de outubro, reduziu a recomendação sobre as ações do Banco do Brasil para “underweight”, alertando que a recuperação do banco pode levar anos. Analistas do Citi também reforçam que os desafios relacionados à qualidade dos ativos no crédito rural provavelmente persistirão até 2027, devido às baixas taxas de regularização de pagamentos e à ausência de benefícios relevantes da Medida Provisória 1376.
As projeções indicam que o Banco do Brasil pode registrar uma queda de 50% a 60% no lucro antes dos impostos (EBT) em relação ao trimestre anterior, chegando a cerca de R$ 2 bilhões, com lucro líquido próximo de R$ 1,9 bilhão. A divulgação dos resultados está prevista para 11 de novembro, após o fechamento do mercado, com expectativa de lucro de aproximadamente R$ 3,7 bilhões, conforme projeções da LSEG.
No caso do Bradesco, que abre o calendário de resultados do setor na quinta-feira (22), após o fechamento do mercado, as expectativas dos analistas do Safra, Daniel Vaz e Rafael Nobre, apontam para um resultado ligeiramente negativo. Isso se deve ao aumento das provisões, que deve superar a recuperação na margem financeira com clientes (NII), deixando o banco dependente de resultados de seguros e do controle de custos para manter o lucro líquido estável. O Citi prevê um resultado misto, com receitas de tarifas e atividades de mercado ajudando a compensar parcialmente as pressões sobre a qualidade dos ativos. O JPMorgan, por sua vez, elevou a recomendação das ações do Bradesco para “overweight”, considerando uma oportunidade de recuperação mais atraente, apesar dos desafios de curto prazo.
As estimativas da LSEG indicam que o Bradesco deve apresentar um lucro líquido de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre. O Nubank, por sua vez, deve continuar apresentando forte expansão de receitas, apoiada na tendência observada nos últimos trimestres, o que deve resultar em uma expansão moderada do lucro sequencialmente. Os analistas do UBS BB estimam um lucro de US$ 1,09 bilhão, divulgado em 12 de novembro, embora esperem aumento das provisões, com impacto do programa governamental Desenrola mais limitado neste trimestre.
Para o Santander Brasil, as expectativas do Safra indicam um trimestre fraco, uma vez que o crescimento moderado da carteira de crédito, a contínua compressão dos spreads e a deterioração da qualidade dos ativos devem levar a uma nova queda nos lucros antes dos impostos e líquidos. Os analistas do Citi reforçam que a qualidade dos ativos é o principal ponto de atenção, com pressões nos segmentos de cartões de crédito, pequenas e médias empresas e no agronegócio, embora receitas de tarifas e disciplina de custos possam oferecer algum suporte aos resultados. O desempenho do Santander está previsto para 28 de outubro, com expectativa de lucro de R$ 3,2 bilhões.
Por fim, o Itaú Unibanco deve apresentar resultados resilientes, com qualidade de ativos e controle de custos ajudando a sustentar os lucros, apesar do crescimento mais moderado da carteira de crédito. O Citi espera um trimestre sólido, com crescimento saudável da carteira, margem financeira estável e qualidade dos ativos mantida. Os resultados do Itaú, previstos para 3 de novembro, e do BTG Pactual, em 10 de novembro, são acompanhados de perto pelos analistas, com projeções de lucro de R$ 12,6 bilhões e R$ 5,2 bilhões, respectivamente, conforme estimativas da LSEG.