O aumento expressivo de casos de sarampo nos Estados Unidos, impulsionado por mudanças no calendário de vacinação e discursos antivacinação do governo, representa uma ameaça à saúde pública global e coloca em risco o status de eliminação da doença no Brasil. Em 2023, o país registrou 61 casos de sarampo, a maioria com origem importada, enquanto mantém sua certificação como área livre da doença, conquistada em 2016 e perdida em 2019 devido à reintrodução do vírus na região Norte, que resultou em um grande surto em São Paulo, com 19 mil casos.
O surto nos EUA, considerado o pior em mais de três décadas, já confirmou mais de 4,4 mil casos neste ano, incluindo três mortes. A grande maioria dos infectados, 98%, não tinha imunização completa contra a doença. Segundo Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, essa situação reflete um retrocesso que ameaça toda a América, especialmente devido ao apoio de autoridades americanas a discursos negacionistas. Ele destaca que o secretário de Saúde dos EUA, que ocupa posição equivalente à de um ministro, declarou-se antivacina, o que contribui para o aumento do descontrole da doença no país.
As mudanças recentes no calendário de vacinação americano, promovidas pelo governo de Donald Trump, reforçam esse cenário. Em agosto, o governo reduziu de 17 para 11 o número de imunizações recomendadas para crianças e propôs que a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, fosse dividida em três doses distintas, administradas em momentos diferentes. Essas medidas, motivadas por razões políticas e não por evidências científicas, geraram confusão na população e prejudicaram a confiança na vacinação, avalia Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
As decisões americanas têm repercussões diretas no Brasil, onde o Ministério da Saúde mantém esforços para garantir altas coberturas vacinais. Em 2023, a cobertura da tríplice viral no país atingiu 88% na primeira dose e 66% na segunda, mas subiu para 96% e 78%, respectivamente, em 2024. As taxas preliminares deste ano indicam 95% na primeira dose e 80% na segunda. Essas ações foram essenciais para que o Brasil recuperasse seu certificado de área livre de sarampo, perdido em 2019 após uma reintrodução do vírus na região Norte e um surto que afetou especialmente São Paulo.
Gatti reforça que a manutenção do status de país livre depende de uma cobertura vacinal de pelo menos 95%. Ele alerta que a doença, que possui alta transmissibilidade, representa risco especialmente para populações vulneráveis, como indígenas e pessoas em situação de pobreza, além de causar complicações graves, incluindo óbitos, abortos e problemas obstétricos. A vigilância rápida e eficaz no Brasil, com ações de isolamento, monitoramento e reforço vacinal, tem sido fundamental para conter o avanço do sarampo, especialmente em estados como São Paulo e Amazonas, onde milhares de doses extras de vacina foram aplicadas neste ano.
Juarez Cunha destaca que a falsa sensação de segurança, resultante do sucesso da vacinação, pode levar à complacência e à diminuição da cobertura imunizadora. Mesmo com o controle atual, o risco de novos surtos permanece, sobretudo diante do aumento de casos em outros países e da influência de discursos de desinformação propagados globalmente. As ações do governo americano, incluindo a separação da vacina tríplice viral e a recomendação de aplicar a vacina contra hepatite B apenas em grupos de alto risco, também têm causado impacto no Brasil, levando a uma maior hesitação de pais em vacinar seus filhos, especialmente em maternidades particulares.
A associação entre vacinas e autismo, amplamente desacreditada por estudos científicos, ainda é utilizada por discursos políticos e de desinformação, dificultando o avanço da imunização. Assim, a manutenção das altas coberturas vacinais no Brasil permanece como uma estratégia essencial para evitar a reintrodução do sarampo, uma doença que, apesar de controlada, continua representando uma ameaça significativa à saúde pública, sobretudo para as populações mais vulneráveis.