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Desaceleração da economia brasileira e seus impactos na política de juros do Banco Central

•Ilustração gerada por IA

A economia brasileira tem apresentado sinais de desaceleração, levantando questionamentos sobre a possibilidade de redução dos juros básicos, a Selic, pelo Banco Central. Entretanto, especialistas destacam que não há um número específico de crescimento do PIB que, isoladamente, indique a necessidade de cortes na taxa de juros. O que realmente importa é se essa desaceleração está contribuindo para reduzir a capacidade das empresas de repassar custos aos preços e, assim, diminuir a pressão inflacionária.

De acordo com o Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira, 24 de outubro, o Banco Central revisou para baixo suas projeções de crescimento econômico para 2023. A estimativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) passou de 2% para 1,8%. Já no que se refere ao consumo das famílias, a previsão foi ajustada de 2,1% para 1,2%, indicando uma desaceleração mais acentuada nesse setor.

Durante coletiva de imprensa, Paulo Picchetti, diretor de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, explicou que o enfraquecimento das compras das famílias está relacionado às condições de financiamento e aos efeitos defasados das altas de juros. Essa explicação ajuda a compreender por que, mesmo após os cortes na taxa Selic, a economia continua perdendo força: o crédito permanece relativamente caro, e os efeitos da política monetária levam tempo para se consolidar.

Por outro lado, a desaceleração econômica não eliminou todas as pressões inflacionárias. O mercado de trabalho permanece aquecido, e, conforme observou Picchetti, salários têm crescido acima da produtividade. Essa dinâmica sugere que uma economia pode crescer de forma mais moderada, mas ainda assim enfrentar custos elevados e ter pouco espaço para ampliar a produção sem pressionar os preços.

Especialistas, como Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper, destacam que o consumo mais fraco dificulta reajustes de preços por parte das empresas, que temem perder vendas. No entanto, essa desaceleração não impede aumentos causados por fatores externos, como elevação nos preços de energia, combustíveis ou alimentos, que continuam representando um desafio para o controle inflacionário. Esses choques externos complicam a missão do Banco Central, uma vez que juros elevados não evitam que problemas como quebras de safra ou crises internacionais afetem os preços internos.

Segundo Picchetti, até o momento, essa propagação de pressões inflacionárias ainda não se manifestou de forma significativa, e a política monetária parece estar ajudando a conter esse efeito. Apesar disso, essa situação não garante que o Banco Central possa reduzir os juros de forma rápida ou significativa no futuro próximo.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, avalia que o crescimento do Brasil deve ficar em torno de 1% em 2027, abaixo da estimativa de 1,4% do próprio Banco Central. Mesmo com esse cenário mais fraco, ele acredita que uma pausa na redução dos juros pode ocorrer após um eventual corte na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Para Vale, há limites para quedas mais expressivas na taxa de juros, considerando fatores como o risco de eventos climáticos como o El Niño, oscilações nos preços de combustíveis e as sinalizações fiscais para o próximo governo.

Para Juliana Inhasz, a continuidade de cortes na Selic dependerá de sinais mais claros de que a inflação de serviços está em queda, com aumentos de preços menos disseminados pela economia e expectativas de inflação mais alinhadas com as metas. Esses fatores indicariam que a desaceleração econômica está contribuindo de forma mais efetiva para reduzir as pressões inflacionárias de maneira duradoura.

Em síntese, a trajetória futura da política de juros no Brasil dependerá do quanto a inflação cederá diante da desaceleração econômica. Se fatores como o petróleo e o clima continuarem a influenciar os preços, o país poderá crescer menos e ainda assim precisar manter os juros elevados por mais tempo, o que representa um risco para famílias e empresas, que sentirão o freio na atividade econômica antes de obterem um alívio significativo nos custos do crédito.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade