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Trump indica que autorizou o Fed a elevar juros, gerando questionamentos sobre independência do banco central

•Presidente dos EUA, Donald Trump, chega com o novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, para cerimônia de posse de Warsh na Casa Branca em Washington, EUA, 22 de maio de 2026. REUTERS/Jonathan Ernst

O anúncio do Federal Reserve de sua primeira alta de juros em três anos marcou uma mudança significativa na relação já conturbada entre o presidente Donald Trump e o banco central dos Estados Unidos. Na noite de quarta-feira, Trump surpreendeu ao insinuar que teria dado permissão ao presidente do Fed na época, Kevin Warsh, para votar pelo aumento, mesmo reconhecendo que a decisão poderia não ser a mais adequada para a economia.

Durante uma entrevista, Trump afirmou que conversou com Warsh, que foi nomeado por ele, e lhe teria dito que poderia votar conforme achasse melhor, pois sua decisão não faria diferença devido à suposta falta de votos favoráveis ao aumento. Segundo o presidente, “Conversei com Kevin e disse que ele poderia votar com o conselho porque não ia fazer diferença… Eu disse: ‘Faça o que quiser porque não importa’, porque ele não tem os votos”. Essas declarações levantam suspeitas sobre o grau de autonomia do Fed, especialmente considerando que a instituição foi criada para atuar de forma independente de influências políticas, tomando decisões baseadas em critérios econômicos e não partidários.

A reação ao comentário de Trump foi de incredulidade por parte de analistas e ex-autoridades do sistema financeiro. Eric Rosengren, ex-presidente do Federal Reserve Bank de Boston, afirmou à CNN que “é um comentário incomum e lamentável. Claramente, o presidente do Fed não precisa da permissão do presidente da República para elevar os juros” e destacou que a declaração sugere que Warsh teria recebido uma espécie de salvo-conduto, embora não haja confirmação de sua veracidade.

Por outro lado, Krishna Guha, vice-presidente e chefe de estratégia econômica da Evercore ISI, descartou as alegações de Trump, ressaltando que o mercado acredita que Warsh foi responsável pela decisão e que o comitê estava unido ao seu redor. “Não há evidências de que Warsh tenha sido arrastado para essa decisão por colegas ou que tenha recebido permissão do presidente”, afirmou Guha.

A preocupação central é que tais declarações possam reforçar dúvidas sobre a independência do Fed, alimentando suspeitas de que o banco central estaria sob influência direta da Casa Branca. Essa percepção é perigosa, pois uma interferência política explícita pode prejudicar a estabilidade das taxas de juros, impactar o mercado de hipotecas e financiamentos de automóveis, além de comprometer as expectativas de inflação de investidores e consumidores.

O Fed optou por não comentar oficialmente as declarações de Trump, enquanto Warsh evitou responder a perguntas sobre suas conversas com o presidente. Durante coletiva de imprensa, ele afirmou que “não sou um boletim de Wall Street” e reforçou a importância da independência do banco central, dizendo que ela é uma via de mão dupla. Quando questionado sobre sua última conversa com Trump, Warsh se limitou a dizer que “não tenho nada a dizer sobre conversas com o presidente”.

Relatos do The Wall Street Journal indicam que Trump teria entrado em contato com Warsh antes da reunião do Fed, em uma conversa que começou de forma amistosa e evoluiu para discutir o aumento das taxas. A Casa Branca não quis comentar oficialmente essas informações.

A situação coloca Warsh sob uma pressão adicional, pois sua postura durante a reunião foi de independência, apoiada pelo consenso dos colegas, incluindo o ex-presidente do Fed Jerome Powell. Sua condução foi vista como segura e coerente, especialmente ao liderar o aumento de juros com respaldo unânime. No entanto, caso a maioria do comitê decida por manter as taxas inalteradas, especula-se que a influência de Trump possa ser vista como um fator de interferência.

Historicamente, presidentes dos EUA tentaram evitar qualquer aparência de influência sobre o Fed, reconhecendo que a independência da instituição é fundamental para a confiança do mercado. Apesar do episódio, a reação inicial de Trump à alta de juros foi relativamente moderada, diferentemente de sua postura mais agressiva contra Powell, seu antecessor.

Embora a relação entre Trump e Warsh continue a evoluir, ela deve ser influenciada pelos próximos movimentos do Fed em relação à inflação, custos de crédito e desempenho do mercado financeiro. Especialistas alertam que uma escalada na elevação das taxas por parte de Warsh poderia intensificar as suspeitas de interferência, prejudicando a credibilidade do banco central e potencialmente levando a uma crise de confiança na sua autonomia.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade