A narrativa de soberania vem sendo utilizada como ferramenta política no contexto das eleições brasileiras, especialmente em um cenário de crescente influência de pressões externas e tarifas comerciais entre países. Essa estratégia busca consolidar uma identidade de autonomia nacional, capaz de mobilizar diferentes segmentos do eleitorado ao colocar em foco a capacidade do país de decidir seu destino sem interferências externas.
Na semana passada, durante um jantar com intelectuais no bairro de Higienópolis, Guilherme Boulos abordou a importância de uma narrativa centrada na soberania para conquistar votos nas próximas eleições brasileiras. Segundo ele, ao colocar a autonomia do país no centro do debate, a campanha procura criar uma conexão com eleitores de diferentes espectros políticos, organizando a escolha em torno de um interesse comum: a preservação da liberdade de decisão do Brasil frente às pressões internacionais.
Esse movimento ganha ainda mais relevância em um momento em que as relações internacionais estão marcadas por tensões e tarifas comerciais. Donald Trump, por exemplo, ameaçou impor tarifas elevadas e interromper parte do comércio com a Europa, caso considere hostil a aproximação entre europeus e canadenses. Essas ações evidenciam uma dinâmica em que parceiros comerciais buscam fortalecer suas posições, enquanto terceiros tentam influenciar decisões que possam impactar suas próprias estratégias econômicas. Nesse contexto, a palavra “soberania” deixa de ser uma simples discussão diplomática e passa a representar uma questão concreta, relacionada a custos financeiros e interesses estratégicos.
A utilidade eleitoral dessa narrativa reside na sua capacidade de unir segmentos que, em outras circunstâncias, poderiam discordar em quase tudo. Por exemplo, um industrial preocupado em manter mercados de exportação e um trabalhador que teme perder empregos devido a mudanças nas relações comerciais podem reconhecer, na ameaça de uma decisão estrangeira, um risco comum. Ainda que divergências sobre impostos, salários ou o papel do Estado persistam, a pressão externa fornece um motivo concreto para que esses grupos se aproximem politicamente, fortalecendo a posição de candidatos que adotem o discurso de soberania.
Durante a conversa em Higienópolis, ficou evidente que uma campanha focada na soberania busca deslocar a fronteira entre os campos políticos tradicionais, tornando mais relevante a distinção entre quem é capaz de preservar a liberdade de decisão do país e quem é visto como limitador dessa autonomia. Para isso, é fundamental que o eleitor compreenda ou aceite esse enquadramento, que já faz parte da disputa política.
No cenário internacional, o exemplo do Canadá ilustra bem essa estratégia. Mark Carney, ex-governador do Banco do Canadá, busca fortalecer alianças com a Europa, diferenciando essa aproximação de uma adesão à União Europeia. Essa postura visa criar alternativas ao alinhamento com Washington, fortalecendo a posição do Canadá em negociações comerciais ao ampliar suas opções de parceiros. Assim como numa empresa que encontra um segundo comprador, essa diversificação de alianças melhora as condições de negociação com o principal parceiro.
No Brasil, para que essa narrativa seja eficaz no âmbito eleitoral, ela precisa estar relacionada às vidas dos eleitores. Tarifas comerciais, por exemplo, tornam-se politicamente compreensíveis quando ameaçam uma encomenda, uma fábrica ou a renda de uma família. É nesse ponto que o conceito de soberania pode deixar o âmbito diplomático e passar a fazer parte do cálculo cotidiano do eleitor, influenciando suas decisões de voto.
A estratégia apresentada por Guilherme Boulos depende justamente dessa tradução: se a pressão externa for percebida como uma ameaça a interesses concretos, a defesa da soberania pode conquistar eleitores que, de outra forma, não se identificariam com a narrativa partidária. Para o empresário, ter alternativas de mercado é uma questão de sobrevivência; para o eleitor, reconhecer essa mesma necessidade no país pode ser decisivo na hora de votar. Assim, a campanha busca fazer com que o eleitor perceba a soberania como uma questão de interesse nacional, capaz de influenciar sua vida diária e suas perspectivas econômicas.