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Divergências entre EUA e China sobre o futuro e a governança da inteligência artificial

•O presidente dos EUA, Donald Trump, participa de eventos no Grande Salão do Povo e faz uma saudação com o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, em 14 de maio de 2026, em Pequim, China, durante uma viagem focada em comércio, segurança regional e fortalecimento dos laços bilaterais entre as duas maiores economias do mundo. Kenny Holston/Pool via REUTERS/File Photo

No último fim de semana, enquanto o mundo se preocupava com os riscos de uma inteligência artificial descontrolada ameaçar a humanidade, os líderes dos Estados Unidos e da China apresentaram visões divergentes sobre o desenvolvimento e o controle dessa tecnologia que deve marcar a era moderna. Os dois países, considerados as maiores potências globais na área de inteligência artificial, demonstraram posições quase opostas, refletindo a crescente rivalidade e a falta de consenso internacional sobre o tema.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump declarou que a prioridade do país é manter a liderança na corrida pela supremacia em inteligência artificial, mesmo diante de apelos de cientistas e executivos de empresas como Anthropic, OpenAI e Google, que pedem uma desaceleração no ritmo de desenvolvimento. Trump afirmou, no sábado, que “estamos liderando a China em IA… e, francamente, quero que continue assim, porque quem vence na IA, vence”. Sua postura evidencia uma estratégia de instrumentalização do setor, considerando a tecnologia um ativo estratégico a ser protegido e exportado para aliados, reforçando a posição de domínio do país na área.

No domingo, o líder chinês Xi Jinping fez um discurso na Índia, durante uma reunião com líderes do Sul Global, no qual defendeu uma maior cooperação internacional e a promoção de um modelo mais aberto de desenvolvimento de IA. Ele destacou a necessidade de “incentivar o código aberto, a abertura, a colaboração e o compartilhamento” e reiterou a proposta de um pacto global de governança de IA, embora sem fornecer detalhes específicos de sua estrutura. Essa postura contrasta com a estratégia americana, que tende a limitar o acesso de empresas chinesas a processadores avançados devido a controles tecnológicos impostos pelos EUA.

A diferença de abordagens reflete também a atual fase de desenvolvimento das respectivas indústrias de IA. A inteligência artificial chinesa, historicamente atrasada em relação à americana, tem apresentado avanços significativos nos últimos anos. Uma startup chinesa, a DeepSeek, surpreendeu o mercado global em 2022 ao criar um modelo de IA com desempenho próximo ao dos principais sistemas americanos, utilizando consideravelmente menos recursos computacionais. Desde então, laboratórios como Alibaba, Z.AI, Minimax e Moonshot têm desenvolvido modelos que desafiam o domínio das empresas pioneiras americanas, como Anthropic e OpenAI.

Entretanto, esse avanço chinês vem acompanhado de acusações crescentes por parte dos Estados Unidos. Washington, assim como as empresas de IA americanas, como OpenAI e Anthropic, alegam que empresas chinesas têm roubado propriedade intelectual ao treinar seus modelos com dados obtidos de forma indevida, um processo conhecido como destilação na indústria. Na semana passada, agências federais americanas, incluindo o FBI, a Agência de Segurança Nacional e a Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura, denunciaram que empresas chinesas de IA estariam realizando um “roubo em escala industrial” de tecnologia americana.

Além dessas alegações, a Anthropic divulgou um relatório detalhando tentativas de agentes ligados ao governo chinês de usar seus sistemas para desenvolver armas e realizar vigilância contra minorias, como os uigures em Xinjiang. Um exemplo citado foi a tentativa de um usuário, supostamente ligado às forças militares chinesas, de redirecionar consultas feitas ao modelo Kimi, da Moonshot, para outro sistema da empresa, o Claude, indicando uma tentativa de espionagem e manipulação. Pequim rejeitou as acusações, enquanto as empresas chinesas permaneceram em silêncio ou não responderam aos pedidos de comentário.

O conflito de narrativas entre as duas potências reflete também suas diferentes percepções sobre os riscos da IA. Pequim enxerga as ameaças de uma forma mais ampla, incluindo riscos à segurança cibernética e à estabilidade social, além de criticar as ações dos EUA por estabelecer controles tecnológicos e criar ecossistemas de código fechado. Um artigo do ministro da Segurança do Estado, Chen Yixin, publicado no domingo, criticou as ações americanas de monopolização de padrões e de imposição de controles, afirmando que tais práticas fragmentam a indústria global de IA e prejudicam o desenvolvimento equilibrado do setor.

A cúpula prevista para as próximas semanas, em Washington, entre Trump e Xi, deve abordar essas questões, mas as expectativas de avanços concretos são baixas devido à profunda rivalidade e à desconfiança entre os dois países. A reunião de maio em Pequim, que também tratou de diretrizes para a IA, resultou em poucos resultados práticos, e a recente declaração do Ministério do Comércio da China indicou que o diálogo intergovernamental dependerá de garantias de que as empresas americanas seguirão regras e regulamentos previamente acordados.

Enquanto isso, a China mantém uma postura mais controladora e regulatória em relação à IA, com regras nacionais que abrangem dados, privacidade, segurança e conteúdo proibido. Apesar do progresso recente, os laboratórios chineses ainda operam com tecnologia inferior à dos EUA, o que limita o incentivo para uma restrição voluntária do desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados. O otimismo público em relação à IA na China é maior, com uma pesquisa de 2025 da Edelman indicando que 72% dos chineses confiam na tecnologia, contra apenas 32% nos Estados Unidos.

As tensões entre as duas maiores economias do mundo continuam elevadas, alimentadas por desconfiança mútua. Washington teme que a cooperação possa facilitar o acesso da China a tecnologias que reforcem seu poder militar e econômico, enquanto Pequim vê as ações americanas como uma tentativa de conter seu avanço tecnológico sob a justificativa de segurança nacional. Nesse cenário, o futuro da governança global da inteligência artificial permanece incerto, marcado por disputas de interesses e pela ausência de um consenso internacional efetivo.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade