O esforço do ex-presidente Donald Trump para reverter o declínio de décadas no número de refinarias de petróleo operando nos Estados Unidos, com o objetivo de diminuir os preços da gasolina, enfrenta obstáculos significativos. Recentemente, Trump convocou executivos do setor petrolífero à Casa Branca para discutir estratégias de reabertura de refinarias fechadas, ampliação da capacidade das instalações existentes e construção de novas unidades. Segundo a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, a administração continuará apoiando essas ações com o intuito de reduzir os custos dos combustíveis e fortalecer a segurança energética nacional.
No entanto, especialistas ressaltam que a construção de novas refinarias nos EUA, que não ocorre desde 1977, não trará resultados imediatos na redução dos preços de gasolina. Desde 1982, o número de refinarias operando nos Estados Unidos praticamente caiu pela metade, e mesmo que uma expansão fosse iniciada agora, levaria anos para que as novas unidades produzissem combustíveis suficientes para afetar o mercado. Além disso, as empresas petrolíferas americanas demonstram pouca disposição em investir na construção de novas refinarias, considerando que o setor, embora altamente lucrativo, acredita que as atuais crises no mercado de energia são temporárias.
A alta nos preços da gasolina, impulsionada por conflitos internacionais envolvendo Irã e Ucrânia, não é vista pelos especialistas como suficiente para justificar investimentos bilionários na construção de novas refinarias, que demandam anos de planejamento e execução. John Auers, diretor de marketing de combustíveis refinados na Novi Labs, questiona a viabilidade de projetos de expansão, destacando que a instabilidade no Estreito de Ormuz e a recuperação de refinarias russas após ataques militares influenciam o mercado global de petróleo. Ele afirma que, mesmo com uma eventual retomada da normalidade na região, os efeitos dessas perturbações podem se estender por anos.
A limitação global na capacidade de refino é apontada como uma das principais causas do aumento dos preços dos combustíveis neste ano, superando até mesmo a influência da guerra no Irã. Segundo Darren Wood, CEO da ExxonMobil, há uma restrição de refinarias no mundo, que faz com que os preços nos postos sejam mais influenciados pela oferta e demanda de produtos refinados do que pelo petróleo bruto. Ainda que o setor de refino tenha enfrentado excesso de oferta por anos, o cenário atual caracteriza-se por uma escassez de capacidade de processamento, que contribui para os preços elevados.
Ataques militares a refinarias no Oriente Médio e na Rússia agravaram a situação, com a Rússia, tradicional exportadora de combustíveis refinados, tendo que importar devido à escassez interna. As instalações no Golfo Pérsico também enfrentam dificuldades de exportação por causa de perturbações no transporte marítimo. Para Auers, a redução de aproximadamente 2 milhões de barris diários na oferta global, decorrente das interrupções na Rússia e no Oriente Médio, é um fator decisivo para o aumento dos preços, mais do que a diminuição da capacidade de refino nos EUA.
Apesar do aumento recente no custo do petróleo, que ultrapassou US$ 100 por barril, as margens das refinadoras americanas atingiram níveis recordes. Segundo Tom Kloza, analista de petróleo, as refinadoras atualmente obtêm lucros de cerca de US$ 100 por barril na venda de diesel e entre US$ 40 e US$ 50 por barril na gasolina, valores considerados excepcionais. Como resultado, muitas refinarias operam com capacidade próxima de 100%, e empresas como ExxonMobil têm adiado manutenções para manter a produção e os lucros elevados.
Entretanto, especialistas alertam que essas operações intensas não podem ser sustentadas por tempo indeterminado. Ao final do ano, paradas temporárias para manutenção deverão ocorrer, levando a uma redução na oferta e à elevação dos preços. Apesar do fechamento de muitas refinarias menores ao longo das últimas décadas, o país tem conseguido suprir sua demanda por combustíveis através das unidades remanescentes, que passaram por melhorias tecnológicas e expansão de capacidade. Desde 1999, a produção de petróleo nos EUA cresceu cerca de 16%, atingindo o recorde de 18,6 milhões de barris por dia em 2019, com uma leve queda de apenas 3% desde então.
O consumo de gasolina nos EUA também diminuiu devido ao aumento da eficiência dos veículos, maior adoção de veículos elétricos e crescimento do trabalho remoto. Os preços da gasolina atingiram níveis históricos, com o valor médio nacional chegando a US$ 4,31 por galão no sábado, de acordo com a AAA, representando a maior marca para setembro. O diesel, por sua vez, superou US$ 6 por galão pela primeira vez na história, enquanto o combustível de aviação também atingiu seu ponto mais alto desde abril.
No entanto, especialistas indicam que a construção de novas refinarias americanas não deve alterar esse cenário no curto prazo. O processo de expansão leva pelo menos três anos, e a construção de uma nova unidade pode demandar até cinco anos, considerando processos ambientais e regulatórios. Além disso, o elevado risco de mudanças na demanda e nas regulamentações futuras torna esses investimentos de longo prazo pouco atraentes para as empresas do setor.
De acordo com Tom Kloza, a demanda por gasolina nos EUA tende a ser a mais baixa de um verão desde 2001, mesmo com os preços elevados. Ele ressalta que a América do Norte permanece como uma das regiões mais favoráveis para refinarias nos próximos cinco a dez anos, mas que essa perspectiva pode mudar dependendo de fatores econômicos e políticos. Assim, as empresas petrolíferas continuam preferindo reinvestir seus lucros extraordinários em exploração de petróleo, oleodutos e em ações de retorno imediato, como recompra de ações e pagamento de dividendos, ao invés de investir em novas refinarias.
Segundo Auers, grande parte dos investimentos recentes do setor de petróleo tem sido direcionada ao segmento de midstream — como oleodutos —, refletindo a preferência do mercado financeiro por retornos rápidos, ao passo que o setor de refino permanece com investimentos relativamente baixos.