O mercado global de petróleo tem mostrado uma notável capacidade de adaptação diante do prolongado conflito envolvendo o Irã, que ultrapassou as expectativas de duração e impacto. Apesar dos preços de combustíveis elevados, que têm representado um custo adicional de aproximadamente US$ 800 para a família americana média desde o início das tensões, o fluxo de petróleo para os mercados internacionais tem se mantido relativamente estável mais de seis meses após o início do conflito. Essa estabilidade é resultado de uma combinação de estratégias e condições que têm permitido ao mercado contornar os obstáculos impostos pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo.
A resiliência do mercado se deve, em grande parte, à adoção de rotas alternativas de trânsito, como o uso de oleodutos na Arábia Saudita que desviam milhões de barris diários para portos fora do alcance do Irã. No entanto, avanços rápidos por parte dos aliados do Irã, como os houthis, lançam dúvidas sobre a viabilidade de tais planos de contingência. Além disso, esforços coordenados pelos Estados Unidos, incluindo missões de escolta marítima com aliados do Golfo, têm contribuído para garantir o transporte de petróleo pelo estreito. Países como Venezuela, Brasil, Guiana e Canadá também elevaram sua produção em aproximadamente 2 milhões de barris por dia, ajudando a manter o fluxo global.
Outro fator que sustenta o mercado é a manutenção de estoques estratégicos relativamente altos por diversos países, que reduziram suas reservas de petróleo em menor escala do que o previsto inicialmente. Essa reserva de petróleo atua como um amortecedor, permitindo que os mercados absorvam o impacto da redução de oferta. Paralelamente, a demanda global por petróleo sofreu uma queda significativa, estimada em cerca de 5 milhões de barris diários, devido às mudanças nos comportamentos de consumo durante o conflito. Muitos consumidores cancelaram viagens, migraram para veículos elétricos ou passaram a utilizar transporte coletivo, além de empresas incentivarem o trabalho remoto. A China, por sua vez, exporta uma quantidade crescente de veículos elétricos, o que sobrecarrega a capacidade de transporte marítimo e influencia a demanda por petróleo.
A combinação desses fatores permitiu que o mercado resistisse ao maior choque de oferta já registrado, mantendo os preços elevados, embora abaixo de suas máximas históricas. Segundo um relatório recente de Natasha Kaneva, analista-chefe de commodities do JPMorgan, o mercado consegue contornar o Estreito de Ormuz de diversas formas. A Arábia Saudita, por exemplo, utilizou oleodutos para redirecionar petróleo, enquanto esforços militares coordenados pelos EUA garantiram o transporte seguro. Além disso, países como Venezuela, Brasil, Guiana e Canadá aumentaram sua produção, contribuindo para o fluxo de petróleo.
Contudo, há preocupações quanto à sustentabilidade dessa situação. Os estoques de petróleo, especialmente em centros de armazenamento estratégicos como Cushing, Oklahoma, atingiram níveis críticos em julho, embora tenham se recuperado parcialmente. A China também mantém uma reserva estimada em torno de um bilhão de barris, mas essa quantidade pode ser rapidamente esgotada em caso de conflito prolongado. Especialistas alertam que, se a guerra persistir, a oferta e a demanda podem entrar em desequilíbrio extremo, levando a uma escalada nos preços do petróleo. A previsão do JPMorgan indica que, em um cenário de conflito contínuo, o petróleo poderia se estabilizar em torno de US$ 87 por barril, enquanto uma resolução rápida poderia fazer os preços caírem para cerca de US$ 64.
Por outro lado, analistas como Bob McNally, presidente do Rapidan Energy Group, adotam uma postura mais pessimista, prevendo que a guerra no Irã pode se transformar em um conflito de duração indefinida, ou uma “superação turbulenta”. Nesse cenário, o Brent poderia se manter em torno de US$ 89 por barril no próximo ano, devido ao risco de uma crise de abastecimento na região. Especialistas também destacam que a estrutura improvisada do mercado apresenta pontos frágeis, como o esgotamento dos estoques de petróleo nos Estados Unidos e na China, cuja capacidade de armazenamento e importação pode não sustentar uma crise prolongada.
Além disso, há preocupações sobre a capacidade militar dos EUA de manter operações de escolta marítima indefinidamente, dado o alto custo dessas ações. Analistas como Helima Croft, da RBC Capital Markets, ressaltam que o conflito encontra-se em uma “zona cinzenta”, com períodos de escalada e calmaria, e que há riscos reais de uma nova rodada de ataques que possa elevar novamente os preços do petróleo, como ocorreu em 2019 com ataques a instalações sauditas. Autoridades e especialistas americanos já se preparam para a possibilidade de um conflito de longa duração, com estimativas de que as exportações de petróleo pelo Estreito de Ormuz permanecerão restritas ao longo de 2024, enquanto a produção no Oriente Médio dificilmente retornará aos níveis pré-guerra até o final do próximo ano, segundo relatórios de entidades como a US Energy Information Administration e a S&P Global Energy. Assim, o mercado de petróleo continua operando em uma nova normalidade, marcada por riscos e incertezas que podem se intensificar caso o conflito persista por mais tempo.