Uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pelo Ministério da Saúde em parceria com o Einstein Hospital Israelita busca auxiliar profissionais do sistema público na triagem e na identificação inicial de doenças de pele. Batizado de CUTIS-AI, o sistema analisa imagens de lesões e cruza essas informações com dados clínicos, epidemiológicos e sociodemográficos relacionados à população brasileira.
A tecnologia foi pensada principalmente para apoiar a Atenção Primária à Saúde, porta de entrada dos pacientes no sistema público e responsável pelo primeiro atendimento e pela avaliação inicial dos casos. A expectativa é oferecer suporte adicional às equipes que precisam analisar lesões com características semelhantes ou situações que podem dificultar a definição de uma hipótese diagnóstica.
O recurso também pode ser relevante em áreas onde há menor disponibilidade de médicos especialistas. Nesses locais, o CUTIS-AI pretende contribuir para que os profissionais tenham mais elementos durante a triagem, sem substituir a avaliação clínica nem a responsabilidade da equipe de saúde pelo atendimento.
Sistema reconhece doenças infecciosas e lesões causadas por aranhas
Entre as enfermidades que fazem parte do escopo da ferramenta estão a esporotricose, a leishmaniose cutânea, a hanseníase, a cromoblastomicose, a lobomicose e a tuberculose cutânea. O sistema também foi desenvolvido para identificar lesões relacionadas a acidentes loxoscélicos, provocados pela picada da aranha-marrom.
A proposta do aplicativo é utilizar os registros visuais das lesões como uma das bases para o apoio à decisão. Essas imagens são avaliadas em conjunto com informações sobre o quadro clínico e com características epidemiológicas e sociodemográficas dos pacientes. A combinação busca tornar a análise mais compatível com a diversidade encontrada no atendimento público brasileiro.
O aplicativo ainda está em fase de estudo. Para orientar sua criação, foram realizadas entrevistas com profissionais que atuam na atenção básica. O objetivo foi compreender as necessidades desses trabalhadores e as condições concretas enfrentadas durante o atendimento em unidades públicas de saúde.
Uma das funcionalidades previstas é o uso sem conexão com a internet. A operação offline permite que o aplicativo seja utilizado em locais onde o acesso à rede é limitado ou não está disponível, ampliando as possibilidades de aplicação da ferramenta em diferentes cenários da rede pública.
Aplicativo alcança taxa de acerto de aproximadamente 80%
Segundo os dados apresentados no estudo, o CUTIS-AI registra, até o momento, uma taxa de acerto de aproximadamente 80%. O índice representa o desempenho atual do aplicativo, que continua em avaliação e aperfeiçoamento. A ferramenta, no entanto, não foi criada para substituir o exame clínico ou a decisão dos profissionais responsáveis pelo atendimento.
Na prática, a inteligência artificial deve funcionar como um instrumento de apoio à triagem e à identificação inicial das doenças. A confirmação do diagnóstico e a definição da conduta permanecem sob responsabilidade da equipe de saúde, que deve considerar o conjunto de informações clínicas de cada paciente.
Isabelle Carvalho, cientista de dados do Einstein Hospital Israelita, afirmou que o desenvolvimento do CUTIS-AI procura ampliar a capacidade de reconhecimento de doenças que ainda podem representar dificuldades para os profissionais, sobretudo em regiões com menos especialistas.
“O CUTIS-AI foi criado para ampliar a capacidade de identificação dessas doenças, que ainda podem representar um desafio para os profissionais de saúde, especialmente em regiões com menor disponibilidade de especialistas. Ao reunir imagens das lesões, estamos construindo uma base de dados robusta, que contribuirá para o desenvolvimento de uma tecnologia útil na ponta, principalmente para a Atenção Primária à Saúde”, declarou.
Estudo reúne cerca de 1,4 mil pacientes
A pesquisa já analisou aproximadamente 1,4 mil pacientes e reúne mais de 4 mil imagens de lesões. O volume de registros é considerado importante para o treinamento do modelo de inteligência artificial, pois permite incluir diferentes manifestações e características associadas às doenças contempladas pelo sistema.
A composição da base também leva em conta a diversidade da população brasileira. Os dados reúnem diferentes fototipos de pele, regiões, condições de vida e perfis epidemiológicos, além de informações clínicas e sociodemográficas. Essa variedade é considerada necessária para evitar que uma tecnologia desenvolvida com base em um grupo restrito tenha desempenho inferior quando aplicada a outras populações.
Fabiano Geraldo Pimenta Junior, secretário de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, ressaltou que a qualidade e a diversidade dos dados são decisivas para o desenvolvimento de soluções de inteligência artificial na área da saúde.
“Uma tecnologia desenvolvida a partir de uma população específica pode não apresentar o mesmo desempenho quando aplicada a outros grupos. Por isso, construir uma base brasileira, com diferentes fototipos de pele, regiões, condições de vida e perfis epidemiológicos é essencial”, afirmou.
Ao reunir imagens e informações de pacientes brasileiros, o CUTIS-AI busca produzir um recurso adaptado à realidade do país. A ferramenta pretende fortalecer o suporte oferecido aos profissionais do sistema público na avaliação inicial de doenças de pele, especialmente na Atenção Primária à Saúde e em locais com acesso restrito a especialistas.