O Banco Central registrou 99 incidentes cibernéticos até setembro de 2026, número superior aos 76 casos contabilizados em todo o ano de 2025 e aos 59 episódios registrados em 2024. Apesar do aumento, a autoridade monetária afirmou que os eventos não representam, até o momento, risco relevante para a estabilidade financeira nem comprometeram o funcionamento do Sistema Financeiro Nacional.
Os dados foram divulgados nesta terça-feira (27), com a publicação do Relatório de Estabilidade Financeira referente ao primeiro semestre de 2026. O documento apresenta a avaliação do Banco Central sobre as condições do sistema financeiro e destaca a evolução dos incidentes cibernéticos identificados no período.
De acordo com o relatório, 68 dos 99 incidentes registrados até setembro foram classificados como fraudes. O número representa uma mudança significativa em relação ao ano anterior. Em 2025, foram identificadas 39 fraudes entre os 76 incidentes cibernéticos contabilizados.
As fraudes correspondem a 73% do total de ocorrências registradas em 2026. Para o Banco Central, a concentração dos casos nessa categoria evidencia vulnerabilidades associadas à gestão de terceiros, ao uso de credenciais privilegiadas e às interfaces de programação de aplicações, conhecidas pela sigla API, de Application Programming Interface.
Digitalização amplia exposição a incidentes
O Banco Central relacionou o aumento dos registros à expansão da digitalização dos serviços financeiros e à maior interconectividade entre os participantes do Sistema Financeiro Nacional. Com mais operações realizadas por meios digitais e com sistemas cada vez mais integrados, a autoridade monetária avalia que também se ampliam os pontos de exposição a ataques e fraudes.
Segundo o relatório, a alta dos números também está relacionada ao fortalecimento dos mecanismos de monitoramento, detecção e comunicação de ocorrências. Esses instrumentos foram implementados tanto pelas instituições supervisionadas quanto pelo próprio Banco Central. Dessa forma, parte do crescimento observado pode refletir uma capacidade maior de identificar e reportar incidentes cibernéticos.
O documento ressalta que os episódios provocaram perdas relevantes em casos específicos. Ainda assim, a avaliação do Banco Central é de que os incidentes não afetaram o funcionamento do Sistema Financeiro Nacional. A autoridade monetária, portanto, não identificou comprometimento sistêmico decorrente das ocorrências registradas até setembro.
Grupos criminosos demonstram conhecimento da estrutura financeira
Na análise do Banco Central, os incidentes mais recentes revelaram que os grupos criminosos possuem elevado grau de conhecimento sobre a operação do Sistema Financeiro Nacional. As ações identificadas não se limitaram a tentativas genéricas de invasão, mas envolveram aspectos específicos da infraestrutura e dos processos utilizados pelas instituições financeiras.
O relatório afirma que as táticas, técnicas e procedimentos observados demonstraram familiaridade com a estrutura de mensageria do Sistema de Pagamentos Brasileiro, com a operação de contas mantidas para fins de liquidação, com os processos internos das instituições e com a arquitetura das soluções tecnológicas empregadas.
Em diversos casos, os ataques combinaram diferentes etapas. Entre elas estavam o comprometimento de ambientes computacionais, a obtenção ou o uso indevido de credenciais válidas, a elevação de privilégios dentro dos sistemas e a automação de transações fraudulentas. A combinação desses recursos permitiu que as ações criminosas explorassem acessos legítimos ou vulnerabilidades existentes na estrutura tecnológica das instituições.
Embora o volume de incidentes tenha superado os registros de 2025 e 2024, o Banco Central manteve a avaliação de que não há risco relevante para a estabilidade financeira. A autoridade monetária, contudo, destacou a necessidade de acompanhar a evolução das ameaças diante do avanço da digitalização, da integração entre os participantes do sistema e do grau de sofisticação demonstrado nos episódios analisados.