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Eleições de 2026 mostram impacto da antecipação de cenários sobre bolsa, câmbio e juros

•Painel eletrônico mostra flutuações de ações na B328/10/2021REUTERS/Amanda Perobelli

O mercado financeiro brasileiro registrou fortes oscilações nas semanas que antecederam o segundo turno das eleições de 2026. Entre a sexta-feira, 25 de setembro, e a véspera da votação, o Ibovespa avançou da faixa de 183 mil pontos para 205 mil, o dólar caiu abaixo de R$ 5 e os juros futuros tiveram uma das maiores quedas diárias da história. A maior parte desse movimento ocorreu em um único pregão, em 5 de outubro, evidenciando que investidores que não estavam posicionados antes da abertura não conseguiram capturar integralmente a valorização.

O período analisado envolve o comportamento da bolsa brasileira, das opções do ETF EWZ, das ações e setores que mais subiram, além das reações do câmbio e da curva de juros. A principal conclusão não está relacionada à previsão sobre o vencedor da eleição, mas à forma como uma carteira pode ser estruturada para participar de movimentos que dificilmente são antecipados com precisão.

A bolsa avançou antes mesmo da confirmação das pesquisas

Na semana anterior ao primeiro turno, o Ibovespa subiu 4,71% e encerrou a sexta-feira, 2 de outubro, aos 192.114 pontos, no maior nível desde abril. Apenas no último pregão daquele período, o índice avançou 2,63%. Analistas associaram a alta à expectativa de que o candidato da direita tivesse um desempenho superior ao indicado pelas pesquisas.

O cenário, porém, ainda era marcado por incerteza. O levantamento Datafolha divulgado na véspera apontava Lula com 42% dos votos totais no primeiro turno, ante 38% de Flávio Bolsonaro. Assim, os investidores que mantinham posições compradas em ações estavam expostos a uma possibilidade, e não a uma certeza eleitoral.

Alguns papéis já haviam começado a antecipar esse movimento. A Hapvida liderou os ganhos da semana, com valorização de 24,6%, enquanto a Azzas 2154 avançou 19,3%.

Resultado do primeiro turno provocou reprecificação imediata

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, resultado acima do previsto pelas pesquisas. Na segunda-feira, dia 26, o mercado reagiu de forma concentrada e reprecificou os ativos.

Entre 5 e 9 de outubro, o Ibovespa acumulou alta de 8,82%, enquanto o dólar recuou 4,44%. Quase todo o ganho da bolsa veio do chamado gap de abertura observado na segunda-feira, quando os preços já começaram o pregão em níveis significativamente diferentes dos registrados no fechamento anterior.

O EWZ, ETF da iShares que acompanha as maiores empresas brasileiras negociadas em Nova York, funcionou como um dos principais termômetros globais para a percepção dos investidores sobre a eleição. No início de setembro, as posições em opções de compra, conhecidas como calls, somavam cerca de 5,2 milhões de contratos. A exposição nocional era estimada em aproximadamente US$ 20 bilhões, concentrada nos preços de exercício de US$ 43 e US$ 45, com vencimento em 20 de novembro.

Naquele momento, o EWZ era negociado entre US$ 38 e US$ 39, ficando de 10% a 18% abaixo dos strikes. Em 7 de setembro, a 22V Research sugeriu uma trava de calendário: vender a call de outubro com strike de US$ 42 e comprar a de novembro com strike de US$ 41. A operação custava cerca de US$ 1,20, quando o ETF estava em US$ 37,86. A estratégia buscava obter exposição ao segundo turno com um custo limitado.

Em 5 de outubro, o EWZ abriu com um salto de US$ 38,22 para US$ 42,74, renovou a máxima em seis anos e passou a acumular alta de 20% na semana e de 34% no ano. Uma call de novembro com strike de US$ 41, que antes estava fora do dinheiro, passou a valer pelo menos US$ 1,74 apenas em valor intrínseco.

O episódio também mostrou o risco desse tipo de instrumento. As opções permitem participar de um evento binário com perda máxima previamente conhecida, mas o prêmio pago pode ser totalmente perdido caso o resultado caminhe na direção oposta. Por isso, são instrumentos para posições dimensionadas dentro de uma carteira, e não para comprometer todo o patrimônio em uma única aposta.

Ações domésticas lideraram os ganhos, enquanto exportadoras perderam espaço

As empresas que mais se beneficiaram não foram necessariamente as blue chips, mas companhias sensíveis à queda dos juros e ao consumo interno. Nos dois primeiros pregões após o primeiro turno, 18 ações pertencentes ao Ibovespa, ao IDIV e ao índice de Small Caps subiram mais de 20%, enquanto o Ibovespa avançou 7,14%.

Na direção oposta ficaram os exportadores. A Vale limitou uma alta ainda maior do índice, e o setor siderúrgico teve três representantes entre as maiores quedas. Com a valorização do real, empresas que obtêm parte relevante de suas receitas em dólar tendem a ser pressionadas pela conversão dessas receitas para a moeda brasileira.

A composição dos índices reforçou a importância da diversificação. As sete ações do Ibovespa que mais subiram de 20% representavam apenas 3,13% do índice. Em sentido contrário, as 12 ações que caíram somavam 21,15% da carteira. Dessa forma, quem mantinha apenas o índice, ou concentrava os investimentos em exportadoras, capturou somente uma parcela do movimento positivo observado no período.

Dólar funcionou como proteção, mas perdeu valor no cenário de menor risco

O dólar encerrou a sexta-feira anterior à eleição em R$ 5,2165 e chegou à véspera do segundo turno cotado a R$ 4,993. Em outubro, a moeda acumulava queda de 3,50% e, no ano, recuo de 9,03%.

Para investidores que mantinham dólar como proteção, o período representou uma perda. Esse comportamento, no entanto, é compatível com a função de um hedge: quando o cenário de risco não se concretiza, o ativo usado como proteção pode se desvalorizar justamente porque a necessidade de proteção diminuiu.

Queda dos juros beneficiou títulos de prazo mais longo

Na véspera do primeiro turno, o contrato de DI para janeiro de 2029 era negociado a 13,79%, enquanto o DI para janeiro de 2031 estava em 13,96%. Na manhã de 5 de outubro, o DI janeiro de 2029 chegou a 12,83%, uma queda próxima de um ponto percentual em poucas horas. Em 8 de outubro, o DI janeiro de 2028 era negociado ao redor de 12,52%.

Esse movimento favoreceu investidores que tinham títulos prefixados ou atrelados à inflação com prazos mais longos, por meio da chamada marcação a mercado. Como regra aproximada, a valorização corresponde à duration do título multiplicada pela queda da taxa. Um papel prefixado com duration próxima de dois anos, diante de uma redução de quase um ponto percentual nos juros, poderia se valorizar cerca de 2% de uma vez, além da taxa contratada.

Quem estava exclusivamente posicionado em investimentos pós-fixados continuou recebendo a remuneração do CDI, o que preserva a rentabilidade do investimento, mas não permitiu capturar o ganho adicional provocado pela valorização dos títulos longos.

Mercado entrou em compasso de espera antes do segundo turno

Após atingir o recorde de 209.067 pontos nos dias 8 e 9 de outubro, a bolsa passou a operar em compasso de espera. Na volta do feriado, em 13 de outubro, o Ibovespa caiu em meio à realização de lucros e à divulgação da pesquisa BTG/Nexus, que apontava 48% a 45%, em situação de empate técnico. Na mesma semana, o dólar devolveu parte da queda anterior e subiu 1,77%.

Na reta final da campanha, cada nova pesquisa provocou ajustes nos preços. Em 20 de outubro, o Ibovespa subiu 1,57%, para 208.296 pontos, impulsionado também pela entrada de capital estrangeiro. No dia seguinte, a pesquisa Quaest, com 45% a 44%, trouxe uma correção nos ativos.

No último pregão analisado, na sexta-feira, 23 de outubro, o Ibovespa fechou aos 205.083 pontos. O índice acumulava queda de 0,17% na semana, alta de 10,06% em outubro e valorização de 27,28% em 2026.

A análise foi produzida na manhã do segundo turno, antes do conhecimento do resultado. Essa circunstância reforça o principal ponto do período: boa parte de um cenário possível já estava incorporada aos preços, enquanto o próximo gap de abertura, para cima ou para baixo, ocorreria antes que a maioria dos investidores pudesse reagir.

Entre 2 e 23 de outubro, o desempenho de cada posição dependeu menos da opinião política do investidor e mais de onde os recursos estavam alocados antes da abertura de 5 de outubro.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade