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Maior IPO da história está matando as criptomoedas?

•Reuters/Mike Blake/Foto de arquivo

Existe uma verdade que muitos investidores ignoram nos momentos de maior empolgação: o capital disponível para alocação em ativos de risco é finito no curto prazo.
Quando uma grande oportunidade surge em um determinado setor, é natural que parte do dinheiro que estava em outros lugares seja realocada para essa nova oportunidade do mercado.
Em outras palavras, o mercado é um jogo de vasos comunicantes, em que o dinheiro que entra em um lugar precisa, necessariamente, ter saído de outro.
Alguns chamam isso de “rotação de capital”: saída do dinheiro de um lugar e migração para outro. Isso pode acontecer entre setores da bolsa de valores ou entre classes de ativos diferentes.
E é exatamente esse fenômeno que está acontecendo neste momento entre as ações de tecnologia, o universo da IA e o mercado de bitcoin e criptomoedas.
Isso porque, nesta sexta-feira (12) a SpaceX, empresa de foguetes e satélites controlada por Elon Musk, fará sua estreia na Nasdaq, a bolsa de tecnologia americana, sob o código SPCX. A captação esperada é superior a US$ 75 bilhões e, com isso, o valor de mercado da SpaceX deve atingir, na estreia, aproximadamente US$ 1,75 trilhão.
Para colocar esse número em perspectiva, trata-se do maior IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações) da história do mercado financeiro mundial, superando o IPO da petrolífera saudita Aramco realizado em dezembro de 2019. Você leu corretamente: estamos falando do maior IPO já realizado em toda a história do capitalismo!
A demanda dos investidores pela operação tem sido gigantesca. Segundo informações divulgadas, o livro de ofertas da SpaceX já recebeu pedidos de compra que superam em mais de quatro vezes o tamanho da oferta, totalizando mais de US$ 250 bilhões em ordens.
Esse apetite institucional e do varejo internacional não surgiu do nada, pois precisou ser financiado com capital que estava alocado em outros ativos. E aqui chegamos ao ponto que importa diretamente para quem investe em bitcoin e criptomoedas: parte significativa desse capital saiu, justamente, do mercado de criptoativos.
De acordo com a agência Reuters, investidores estão sistematicamente realocando recursos dos ETFs de bitcoin nos Estados Unidos para ações ligadas à inteligência artificial e para as próximas grandes ofertas públicas, notadamente OpenAI e Anthropic.
No acumulado de 2026, os ETFs de bitcoin já registraram saídas líquidas próximas de US$ 3,1 bilhões, com semanas recentes apresentando resgates superiores a US$ 2,7 bilhões em apenas cinco dias úteis.
O bitcoin, que iniciou o ano operando em patamares próximos das máximas históricas, acumula queda de aproximadamente um terço do seu valor em 2026, refletindo essa fuga de capital institucional.
Os números, portanto, confirmam o que a tese da drenagem de liquidez sugere: o dinheiro está saindo do bitcoin e das criptomoedas, e migrando para ações de tecnologia na Nasdaq.
Mas afinal, por que o mercado prefere a SpaceX ao bitcoin neste momento? Em primeiro lugar, a SpaceX consolida a tese narrativa mais quente do mercado atual: IA, satélites de comunicação e lançamento de missões espaciais comerciais.
Adicionalmente, a empresa absorveu também o xAI, o assistente Grok e a rede social X em uma reestruturação societária realizada no início de 2026, criando o que o mercado chama de “conglomerado tecnológico do futuro”. Por fim, há a percepção, real ou não, de que comprar SpaceX hoje é como comprar Apple ou Amazon nos anos 2000.
No entanto, o IPO da SpaceX não é a única causa da queda do bitcoin neste ano. Como temos discutido em colunas anteriores, o cenário macroeconômico global vem sendo bastante desafiador para os ativos de risco.
Os títulos públicos americanos de longo prazo, os Treasuries, continuam em patamares próximos das máximas desde 2007, drenando liquidez global para a renda fixa em dólar.
O barril do petróleo segue pressionado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, mantendo a inflação americana resistente e impedindo o Fed (banco central dos Estados Unidos) de cortar os juros.
Adicionalmente, tivemos recentemente a primeira venda de bitcoin pela Strategy, do Michael Saylor, em quase quatro anos. O IPO da SpaceX, portanto, não cria o cenário negativo para o bitcoin, mas adiciona mais uma camada de pressão sobre um mercado que já estava enfraquecido.
A pergunta natural do investidor passa a ser: e depois do IPO? A resposta honesta é que não podemos cravar comportamentos futuros do mercado, pois ele é soberano.
No entanto, existem dois caminhos prováveis. Com a alocação ao IPO encerrada e o capital institucional já posicionado, parte desse dinheiro poderá voltar a buscar oportunidades em outros ativos de risco, incluindo o bitcoin e criptomoedas.
Por outro lado, se a SpaceX tiver uma estreia muito forte e o apetite por nomes de tecnologia se mantiver elevado, a drenagem pode se prolongar por meses, com efeitos sobre as criptomoedas que durariam até o próximo ciclo de corte de juros americano.
Diante desse cenário, o que o investidor brasileiro precisa entender é que o bitcoin não vive em um vácuo. Está inserido em um sistema financeiro global em que compete diretamente por capital com ações de tecnologia, IPOs bilionários e, principalmente, com a renda fixa em dólar oferecendo retornos superiores a 5% ao ano.
Portanto, em momentos como o atual, a estratégia mais sensata continua sendo a de aportes graduais e fracionados, com gestão forte de risco e preservação de capital.
O investidor que entende a dinâmica dos vasos comunicantes do mercado não se surpreende com quedas pontuais e mantém o foco no longo prazo, sabendo que ciclos de rotação de capital fazem parte da história dos mercados financeiros desde sempre.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade