O lançamento do foguete HANBIT-Nano, criado pela empresa sul-coreana Innospace, ocorreu na última segunda-feira, dia 22, mas resultou em uma anomalia que fez o veículo colidir com o solo. Essa parceria comercial com o Brasil estava sendo realizada no Centro de Lançamento Espacial de Alcântara, no Maranhão, que já foi palco de uma tragédia há 22 anos, quando 21 técnicos e engenheiros perderam a vida em uma explosão durante o desenvolvimento de um veículo lançador de satélites (VLS).
O acidente do VLS-1, ocorrido em 22 de agosto de 2003 no mesmo centro, resultou na morte de 21 pessoas e representava a primeira tentativa brasileira de colocar satélites nacionais em órbita. Normalmente, a carga a ser transportada nesses lançamentos consiste em satélites artificiais. Naquele momento, o programa VLS estava em seu terceiro protótipo, com a intenção de transportar equipamentos de 100 a 300 quilos para uma órbita circular que poderia alcançar mil quilômetros de altitude.
Uma investigação da Aeronáutica revelou que o incêndio foi causado pelo “acionamento intempestivo” de um dos motores, resultado de uma pequena peça relacionada à ignição. As causas desse acionamento não foram determinadas, mas uma teoria sugere que uma descarga eletrostática na peça de ignição poderia ter sido a responsável. A investigação descartou a possibilidade de sabotagem, erro humano grave ou influências meteorológicas. Contudo, o relatório final identificou “falhas latentes” e “degradação das condições de trabalho e segurança”.
O acidente em Alcântara teve consequências significativas para o projeto VLS e impactou negativamente o Programa Espacial Brasileiro (PEB). Apesar da construção de uma nova torre de lançamento, a base praticamente permaneceu inativa, e os fundos governamentais diminuíram, levando ao encerramento oficial do projeto em 2016.
Em 2023, o Estadão lançou o podcast “Alcântara: O desastre espacial brasileiro”, dividido em três episódios, que reconta a tragédia, investiga suas causas e discute os planos e desafios para o Brasil retomar seus sonhos espaciais. Durante sete meses, a iniciativa envolveu as editorias Link e Metrópole, além da Rádio Eldorado (FM 107,3 SP). A equipe teve acesso a documentos inéditos da investigação, vídeos de bastidores do programa espacial e fez uma visita exclusiva ao centro de lançamento no Maranhão. Também foram coletados depoimentos de familiares das vítimas, profissionais envolvidos na operação, especialistas e representantes da Força Aérea Brasileira (FAB).