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O impacto das mudanças climáticas no acesso à água e no saneamento básico

Foto:Daniel Teixeira/Estadão

Dentro dos 17 objetivos traçados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para serem alcançados até 2030, o sexto objetivo busca “garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos”. Com apenas cinco anos até o prazo final, o desafio já significativo pode se intensificar devido às mudanças climáticas.

A Aliança pela Água (SWA) tem como missão promover um diálogo unificado sobre os serviços relacionados à água, visando melhorar o acesso por meio de colaborações com diferentes agências da ONU, instituições internacionais, governos, setor privado, organizações não governamentais (ONGs) e comunidades. Essa iniciativa busca garantir que a questão receba a devida atenção política. Sitali, natural da Zâmbia, ocupa interinamente o cargo desde o falecimento de sua antecessora, a portuguesa Catarina de Albuquerque, em outubro de 2025.

A maioria das discussões e projetos se concentra em países da África, Ásia e América Latina, embora também haja participação de algumas nações europeias. No Brasil, a SWA dialoga com governos e instituições locais, incluindo o Instituto Água e Saneamento (IAS), fundado por mulheres para monitorar os avanços e retrocessos na área, além de fornecer dados relevantes para o debate sobre políticas públicas.

Paula Pollini, coordenadora de Articulação e Incidência do IAS, destaca: “O papel da sociedade civil é fundamental para o monitoramento, o que fazemos de forma contínua. A efetividade na tomada de decisões e na implementação ocorre com a participação ativa da sociedade civil.”

Um relatório da OMS e da Unicef revela que, entre 2000 e 2024, a população mundial cresceu de 6,2 bilhões para 8,2 bilhões, e, nesse mesmo período, 2,2 bilhões de pessoas passaram a ter acesso à água potável e 2,8 bilhões ao saneamento. No entanto, as mudanças climáticas apresentam várias ameaças ao fornecimento desses serviços.

O primeiro impacto evidente é o aumento na frequência de eventos climáticos extremos, como secas. Algumas regiões podem experimentar uma diminuição nas precipitações, tornando-se menos habitáveis, enquanto outras podem enfrentar chuvas intensas em determinados períodos.

Assim, em alguns meses, a quantidade de chuvas pode ser excessiva, resultando em inundações, enquanto em outros períodos pode ser insuficiente para reabastecer reservatórios e garantir o fornecimento de água, mesmo que, ao longo do ano, o total de chuvas permaneça semelhante. Essa situação também afeta a agricultura e, no Brasil, a oferta de energia.

Chuvas intensas podem danificar infraestruturas essenciais para o abastecimento de água e saneamento, como canos, adutoras, barragens e diques. Além disso, podem contaminar reservatórios, tornando a água imprópria para o consumo. O aumento do nível do mar também pode prejudicar locais com sistemas de água conectados a oceanos, uma vez que a infiltração de sal impede o uso da água para fins domésticos.

“É um enorme desafio para os municípios planejar de maneira integrada a gestão da drenagem, das infraestruturas de água e esgoto e do manejo de resíduos sólidos, além de promover uma economia circular. Investimentos em drenagem e soluções baseadas na natureza, que incentivem áreas verdes e a permeabilidade do solo, são caminhos a serem explorados. Também é crucial considerar como essas infraestruturas podem ser resilientes diante de eventos climáticos extremos”, sugere Paula Pollini, do IAS.

“Devemos também nos atentar às áreas que ainda não possuem redes oficiais de abastecimento, como comunidades irregulares e rurais mais distantes, e buscar soluções adequadas, que muitas vezes não envolvem sistemas tradicionais, mas alternativas comunitárias ou individuais que precisam ser integradas em políticas públicas”, acrescenta a especialista.

Atualmente, o acesso à água é especialmente difícil para pessoas que residem em países em desenvolvimento, bem como para comunidades rurais, crianças e minorias étnicas. Além disso, há desigualdade de gênero, visto que em muitos locais as mulheres são as principais responsáveis por buscar água em poços e por garantir que ela tenha a qualidade necessária para o consumo.

Com as mudanças climáticas e a intensificação de secas, a distância percorrida para obter água aumenta, expondo as mulheres a riscos elevados, como assaltos, abusos e extorsões durante a busca por fontes confiáveis. O relatório indica que, em 70 países, embora a maioria das mulheres possua materiais menstruais e um espaço privado para se trocar, muitas não têm absorventes suficientes.

“Quem mais sofre com essa situação é a mulher, que cuida dos doentes e, muitas vezes, é responsável por garantir o fornecimento de água quando ela se torna inacessível. O impacto em termos de segurança é muito maior para elas, que não têm um ambiente seguro para suas necessidades de saúde menstrual e outras necessidades básicas, aumentando ainda mais sua vulnerabilidade”, relata Pollini, do IAS.

Frequentemente, apesar de lidarem com essa questão diariamente, as mulheres são excluídas das discussões sobre soluções, resultando em uma perspectiva limitada para a resolução dos problemas, pois não consideram todos os pontos de vista necessários.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade