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Apostar em PPPs é confiar no Brasil que prospera

•Unsplash

Uma frase, mesmo que proferida de maneira casual, desmantela grande parte da confusão que cerca o Brasil atualmente: “ainda é um país repleto de oportunidades”. João Marques da Cruz não a usa como um bordão. Ele a expressa como alguém que já navegou por diferentes governos, mudanças monetárias e ciclos de crescimento e retração — e permanece firme.

Sua análise é clara e, por isso, desconcertante para aqueles que preferem narrativas simplistas: o Brasil pode mudar de governo, mas as políticas estruturais permanecem. Essa continuidade é chamada de parcerias público-privadas, um termo pouco atrativo, mas crucial. Para ele, essas parcerias são a base que tem sustentado a presença de empresas portuguesas no Brasil por décadas. Estruturas como rodovias, aeroportos e energia estão sempre conectadas a esse modelo, que já foi relevante no passado e continua a ser atualmente.

Ao mencionar que a EDP se estabeleceu no Brasil durante a presidência de Itamar Franco, não está apenas relembrando a história empresarial, mas enfatizando um ponto crucial: mesmo diante de crises cambiais, mudanças econômicas e oscilações políticas, a política se manteve estável. Isso é significativo em um país de grandes dimensões.

Um dos insights mais perspicazes de sua fala é que o Brasil não é monolítico; existem múltiplos Brasis. Essa afirmação é feita sem metáforas. Há estados que atuam como motores regionais — como Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso — cada um com suas economias, dinâmicas e decisões próprias. Encarar o Brasil como um bloco uniforme é um erro estratégico inicial para quem deseja investir.

Por isso, ele deixa uma advertência quase como um conselho: escolher parceiros locais é fundamental, não uma mera formalidade. É necessário ter parceiros que realmente conheçam o território, a política regional e os equilíbrios institucionais. Sem essa compreensão, nenhum projeto terá sucesso.

No que diz respeito ao setor energético, João Marques da Cruz é igualmente claro. O Brasil possui energia a preços acessíveis — um recurso valioso em um mundo cada vez mais conturbado. Entretanto, essa vantagem traz um paradoxo: o crescimento das energias renováveis pressiona as redes de transmissão, exigindo investimentos substanciais e apresentando riscos técnicos reais. Aqui não há idealismo ecológico; trata-se de engenharia, sistemas e custos.

Ao abordar os data centers, ele desmistifica outra expectativa exagerada. Investiu-se como se fossem surgir a cada esquina, mas isso não ocorreu. Eles podem aparecer, mas não no ritmo esperado. Planejar com base em desejos muitas vezes resulta em custos elevados.

No comércio bilateral, ele conclui sua análise com dados que não enganam: o Brasil representa cerca de 1,8% das exportações de Portugal. Não é um mercado essencial, mas fora da União Europeia, está sempre entre os três principais destinos. Isso é suficiente para não ser desprezado e demasiado importante para ser tratado com descaso.

Em resumo, o que João Marques da Cruz faz é algo raro: ele retira o Brasil da caricatura. Não é uma promessa sem fim, nem um dilema insolúvel. É um país complexo, desigual e desafiador — mas que se mantém estruturalmente sólido em alguns aspectos. Aqueles que compreendem isso permanecem. Já os que não entendem, saem dizendo que “o Brasil mudou”.

Talvez a mudança nunca tenha sido tão drástica. Talvez o Brasil apenas não aceite amadores.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade