As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) fecharam em queda firme nesta terça-feira (27), um dia depois de avançarem mais de 250 pontos-base em reação negativa do mercado à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento refletiu um ajuste de posições dos investidores e foi acompanhado por uma nova atuação do Tesouro Nacional no mercado, com a recompra de títulos públicos.
Apesar do recuo, os juros futuros permaneceram em patamares elevados e não devolveram integralmente a alta registrada na sessão anterior. No fim da tarde, o DI com vencimento em janeiro de 2028 era negociado a 14,41% ao ano, uma redução de 41 pontos-base em relação ao ajuste de 14,822% observado na véspera, logo após o segundo turno da eleição.
Para janeiro de 2031, a taxa do DI recuava 34 pontos-base, para 14,935%, ante 15,277% no fechamento anterior. A curva de juros futuros reúne as expectativas do mercado para a trajetória da taxa básica de juros e para as condições econômicas e fiscais do país. Por isso, movimentos intensos nesses contratos refletem mudanças relevantes na percepção dos investidores.
Mesmo com a baixa expressiva desta terça-feira, as taxas continuaram distantes dos níveis registrados antes do primeiro turno da eleição. Na segunda-feira, a abertura dos prêmios na curva de juros foi influenciada por dois fatores principais: o ajuste em relação às quedas observadas após a primeira etapa do pleito, quando o senador Flávio Bolsonaro (PL) aparecia à frente de Lula, e o aumento das preocupações com o futuro da política fiscal do governo.
“Vejo um movimento comum de arrefecimento momentâneo, após uma forte explosão de alta do juro futuro, porém a perspectiva ainda continua em tendência elevada”, afirmou Marcos Bassani, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital. A avaliação indica que a queda das taxas foi interpretada como uma acomodação temporária, e não como uma reversão completa da deterioração observada no dia anterior.
Atuação do Tesouro ajudou a conter as taxas
O Tesouro Nacional cancelou no início da manhã o leilão de venda de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), títulos públicos vinculados à taxa básica Selic. Mais tarde, no fim da manhã, o órgão realizou um leilão de recompra de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B), papéis corrigidos pela inflação.
Ao todo, foram recomprados 3,815 milhões de NTN-B, em uma operação com valor aproximado de R$ 16,8 bilhões. A iniciativa ocorreu um dia depois de o Tesouro ter adquirido R$ 14,8 bilhões em títulos prefixados e indexados à inflação. Com isso, o volume total de recompras realizadas pelo órgão em apenas dois dias chegou a cerca de R$ 31,6 bilhões.
As operações contribuíram para reduzir a pressão de alta sobre as taxas dos títulos públicos e dos contratos de DI, embora os juros tenham permanecido em níveis considerados elevados. A recompra de papéis pelo Tesouro aumenta a demanda por esses ativos em um momento de estresse, ajudando a acomodar os preços e, consequentemente, os rendimentos negociados no mercado.
Política fiscal permanece no centro das preocupações
Em entrevista a jornalistas no Ministério da Fazenda, o ministro Dario Durigan afirmou pela manhã que a forte pressão registrada na segunda-feira na bolsa, no câmbio e no mercado de juros futuros representou uma “troca de posição”, já que os investidores estavam apostando na vitória de outro candidato. Segundo ele, o mercado já iniciou nesta terça-feira um movimento de acomodação das expectativas.
Durigan também reiterou a intenção do governo de buscar o centro da meta fiscal. De acordo com o ministro, essa estratégia será discutida com o Congresso Nacional. A política fiscal é uma das principais fontes de preocupação entre os investidores, que consideram insuficientes as medidas do governo Lula para equilibrar as contas públicas e reduzir a dívida.
No exterior, o mercado acompanhava a expectativa pela decisão do Federal Reserve sobre os juros dos Estados Unidos, prevista para quarta-feira. Às 16h35, o rendimento do Treasury de dez anos, referência global para as decisões de investimento, apresentava estabilidade, em 4,986%.