As projeções de uma redução significativa na taxa básica de juros (Selic) até 2027 ganharam força no cenário econômico brasileiro, impulsionadas por expectativas de estabilidade política e avanços fiscais. No entanto, especialistas alertam que essa perspectiva só se sustentará se o Banco Central conseguir manter o controle da inflação e se o governo promover uma melhora consistente nas contas públicas, que vá além das expectativas atuais.
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado nesta sexta-feira (9), evidencia os desafios que o país enfrenta nesse processo. Em setembro, a inflação registrou alta de 0,82%, acima da mediana de 0,76% prevista por analistas, levando a inflação acumulada em 12 meses a 4,58%. Esse resultado mantém o índice acima do teto de tolerância de 4,5%, o que pode dificultar o avanço de cortes na taxa de juros no curto prazo. Economistas ouvidos pelo blog destacam que, embora ainda haja espaço para novos cortes na Selic, a velocidade e a extensão dessas reduções dependerão de fatores que se desenrolarão até 2027, quando as promessas fiscais precisarão se transformar em ações concretas.
Parte do aumento de setembro foi influenciada pelo encerramento do bônus de Itaipu, que retirou um benefício temporário na conta de luz, contribuindo com 0,32 ponto percentual do resultado mensal — quase 40% da inflação do mês. Ainda assim, o foco agora recai sobre a persistência desse efeito, uma vez que outros componentes, como alimentos e combustíveis, voltaram a subir após períodos de queda. Os alimentos, por exemplo, apresentaram alta após três meses de redução, enquanto os combustíveis também ficaram mais caros. Esses fatores indicam que a inflação de curto prazo pode dificultar a implementação de cortes mais agressivos na taxa de juros.
A economista Juliana Inhasz, professora do Insper, observa sinais de que os núcleos de inflação — que excluem componentes voláteis — demonstram resistência, especialmente na evolução dos preços dos serviços. Ela destaca que a alta nos preços de passagens aéreas, que é bastante volátil, deve ser analisada com cautela, pois pode influenciar temporariamente os resultados. Apesar disso, ela mantém a expectativa de que a Selic encerre 2026 em 13,5%, ligeiramente abaixo dos atuais 13,75%, argumentando que o efeito temporário da energia não exige, necessariamente, uma interrupção nos cortes por parte do Banco Central. Para acelerar essa redução, seria necessário que o BC visse uma desaceleração mais consistente nos preços dos serviços e expectativas de inflação alinhadas à meta.
Para 2027, Juliana evita fazer uma projeção definitiva, mas aponta que uma melhora na confiança do mercado poderia abrir espaço para juros menores. No entanto, ela também ressalta riscos, como os efeitos do fenômeno El Niño sobre os preços dos alimentos e a instabilidade no mercado de petróleo, que podem prolongar pressões inflacionárias e dificultar o avanço dos juros.
Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, mantém suas estimativas de inflação para o período. Segundo ele, o IPCA deve alcançar 5,1% neste ano e desacelerar para 4,5% em 2027, cenário que já considerava anteriormente. Ele reforça a preocupação com os estímulos fiscais do governo e os riscos climáticos, que podem manter a inflação elevada por mais tempo. Vale destaca que “quanto maior a inflação de 2026, mais contaminada fica a de 2027” e que a retomada do câmbio e dos juros de longo prazo após o primeiro turno das eleições pode facilitar a continuidade dos cortes na Selic, especialmente diante de uma expectativa de ajuste fiscal relevante no próximo ano.
A dinâmica entre a taxa definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) e os juros negociados no mercado financeiro poderá divergir, uma vez que os investidores já antecipam cenários futuros. Assim, o Banco Central precisará avaliar se as condições atuais são suficientes para conduzir a inflação de volta à meta no horizonte de suas decisões. A possibilidade de que a Selic atinja 12% até o fim do primeiro semestre de 2027 depende, entre outros fatores, de uma sinalização clara de um ajuste fiscal consistente e de uma equipe econômica capaz de aprovar medidas eficazes.
Por fim, as perspectivas variam de acordo com o resultado das eleições presidenciais. Em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, espera-se uma equipe econômica alinhada a esse perfil, embora sua execução dependa de força política. Já na hipótese de reeleição de Lula, há risco de piora nas expectativas de inflação e maior pressão por cortes de juros, embora o Banco Central, sob a liderança de Gabriel Galípolo, seja visto como mais orientado por critérios técnicos e pelo controle de preços. Assim, a condução da política monetária será um dos primeiros testes para o próximo governo, cuja escolha da equipe e propostas fiscais poderá influenciar significativamente a trajetória dos juros e da inflação no médio prazo.