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Câmbio brasileiro permanece estável com perspectivas incertas diante de eleições e decisão do Fed

•10/09/15 – REUTERS/Ricardo Moraes

O valor do dólar no Brasil deve permanecer relativamente estável até o final de 2026, embora o cenário seja marcado por alta volatilidade e incertezas relacionadas ao processo eleitoral e às decisões de política monetária nos Estados Unidos. A combinação de fatores internos e externos mantém o câmbio sob atenção, com especialistas destacando que a trajetória da moeda dependerá de uma série de elementos que se desenrolam ao longo do próximo período.

O real ainda conta com suporte derivado de uma das maiores taxas de juros reais do mundo, além de um diferencial relevante em relação aos Estados Unidos. Essa condição garante pagamentos atrativos em títulos de renda fixa brasileiros, uma vantagem que atrai investidores internacionais, dado que o custo do dinheiro aqui permanece mais elevado do que no país norte-americano, onde as taxas de juros são mais baixas. No entanto, o cenário eleitoral brasileiro, com a aproximação das eleições presidenciais, aumenta a incerteza sobre a política fiscal do próximo governo, o que pode afetar a estabilidade do câmbio. Simultaneamente, a trajetória dos juros nos Estados Unidos, que pode ser ajustada na próxima reunião do Federal Reserve, tende a reduzir parte da vantagem competitiva dos ativos brasileiros, influenciando a cotação do dólar.

Segundo o último boletim Focus, divulgado pelo Banco Central em 8 de setembro, as expectativas de mercado indicam uma cotação próxima de R$ 5,20 para o dólar ao final de 2026, com previsão de R$ 5,30 para 2027. Ainda assim, especialistas alertam que, apesar dessa projeção de estabilidade, o percurso até lá deve ser marcado por oscilações acentuadas, especialmente à medida que o calendário eleitoral se aproxima. Pesquisas que mostram uma disputa mais equilibrada entre candidatos, como Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, têm impactado positivamente o mercado, elevando o real e impulsionando o índice Ibovespa, sobretudo quando indicam uma possível continuidade de um governo conhecido ou uma mudança com potencial de atrair investimentos.

O cenário eleitoral já se reflete nos preços dos ativos, com o dólar fechando em R$ 5,10 em 2 de setembro, após uma pesquisa que apontou empate técnico na corrida presidencial. Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, o ambiente doméstico apresenta um quadro misto: o diferencial de juros ainda favorece o real, mas a questão fiscal representa um risco que pode ganhar força, dependendo do resultado eleitoral e das ações do próximo governo. Ele acrescenta que a avaliação mais concreta do impacto fiscal só ocorrerá após a definição da equipe econômica e das medidas de ajuste fiscal adotadas.

A eleição, contudo, não é o único fator de influência. O Federal Reserve, que se reúne entre 15 e 16 de setembro, também desempenha papel crucial na direção do câmbio. Dados recentes mostram que a inflação nos Estados Unidos, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI), subiu 0,4% em agosto, elevando a expectativa de que o Fed possa elevar os juros na próxima decisão. Caso o Banco Central americano continue com uma postura mais dura, enquanto o Brasil mantém ou reduz sua taxa de juros, a diferença de custos de financiamento entre os dois países diminui, o que pode reduzir o atrativo do real. Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, reforça que o cenário permanece bastante incerto, e que uma eventual manutenção do ciclo de corte da Selic dependerá do comportamento do câmbio e da inflação futura.

Atualmente, o mercado ainda sustenta o real por meio do carry trade, que se beneficia do diferencial de juros. Contudo, se o Brasil reduzir suas taxas enquanto os EUA elevam as deles, essa vantagem tende a diminuir, colocando em risco a estabilidade do câmbio. William Castro Alves destaca que, nos próximos 12 meses, a combinação de um diferencial de juros menor e a possível perda de força nas commodities — cuja valorização, impulsionada pelo aumento do petróleo, também influencia o câmbio — pode pressionar o dólar. O petróleo, que voltou a ultrapassar US$ 100 por barril devido ao conflito no Oriente Médio, tem impacto direto na entrada de dólares no país e na inflação global. Uma alta nos preços do petróleo melhora os termos de troca do Brasil, mas também aumenta os riscos inflacionários e pode dificultar a atuação do Fed.

Por fim, os analistas ressaltam que a trajetória do dólar até o final de 2026 será influenciada por múltiplos fatores, incluindo o resultado eleitoral, as decisões do Fed e a variação do preço do petróleo. As projeções atuais indicam que o mercado não espera uma disparada da moeda, com o Focus apontando R$ 5,20 para o fim de 2026 e R$ 5,30 para 2027. Em 11 de setembro, o dólar fechou em alta de 0,47%, cotado a R$ 5,1252. Fernando Gonçalves projeta uma cotação de R$ 5,30 ao final do ano, considerando a possibilidade de menor diferencial de juros e discussões fiscais após o pleito, embora ressalte que o real ainda mantém ganhos em relação ao início de 2023. Para William Castro Alves, o mais importante é entender que o câmbio não será determinado apenas pelo resultado eleitoral, mas por uma combinação de fatores internos e externos, incluindo política fiscal, ambiente internacional e o preço do petróleo.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade