A União Europeia está ajustando sua estratégia industrial diante de um cenário de crescente competição global, especialmente contra Estados Unidos e China. A iniciativa foi apresentada durante a inauguração da maior planta de captura e armazenamento de carbono do continente, localizada em Sluiskil, na Holanda, por representantes do bloco, incluindo o primeiro-ministro holandês, Rob Jetten, e o comissário europeu para Clima, Emissões Líquidas Zero e Crescimento Limpo, Wopke Hoekstra.
Os líderes ressaltaram que a descarbonização deixou de ser uma agenda exclusivamente ambiental e passou a integrar a estratégia de competitividade e segurança econômica da União Europeia. Jetten destacou que a indústria europeia enfrenta três grandes desafios simultâneos: a concorrência da China, as políticas comerciais dos Estados Unidos e os elevados custos de energia. Para enfrentar esses obstáculos, a resposta do bloco deve envolver investimentos em inovação tecnológica e a aceleração da transição energética, sem comprometer a capacidade produtiva industrial.
Segundo o primeiro-ministro holandês, a estratégia não consiste em optar entre crescimento econômico e redução de emissões, mas em promover ambos de forma simultânea. Ele citou como exemplos investimentos em hidrogênio verde, a integração de infraestrutura energética entre Holanda, Alemanha e Bélgica, além da criação de corredores de transporte de eletricidade e combustíveis de baixo carbono entre os principais polos industriais do continente.
O principal desafio, conforme Jetten, é realizar essa transição sem perder competitividade frente a concorrentes de fora da União Europeia. Para isso, é necessário estabelecer uma economia baseada em regras que seja lucrativa dentro do próprio bloco. Nesse contexto, Hoekstra colocou a dependência energética como uma das questões centrais, destacando que a Europa importa mais de 80% do gás e mais de 95% do petróleo consumido, o que impacta diretamente sua competitividade. Ele afirmou que as mudanças no mercado de energia fizeram o bloco pagar cerca de meio bilhão de euros a mais, sem obter aumento proporcional no fornecimento de energia em comparação ao ano anterior.
O comissário também enfatizou a necessidade de ampliar os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, especialmente em setores que serão determinantes para a economia do futuro. Ele apontou que a Europa está ficando para trás em relação a outras regiões, tanto na competitividade quanto na autonomia, e que essa situação exige uma mudança na estratégia econômica do bloco. Além da energia, Hoekstra destacou a dependência externa na cadeia de fertilizantes, defendendo uma produção mais europeia, com fertilizantes mais baratos, limpos e produzidos na própria Europa.
Jetten relacionou essas preocupações às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, que afetaram cadeias globais de energia e matérias-primas, reforçando a necessidade de fortalecer cadeias de suprimento entre países parceiros e reduzir a dependência de fornecedores considerados geopoliticamente sensíveis. Ele destacou que investir na produção sustentável de fertilizantes sem depender de regimes considerados adversos é fundamental para a autonomia estratégica europeia, além de ter um impacto positivo na economia.
Nesse contexto, o Brasil surge como parceiro estratégico, com potencial para contribuir na diversificação de cadeias produtivas de fertilizantes e alimentos mais resilientes. Jetten mencionou o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia como uma peça-chave nesse esforço, reforçando a importância de fortalecer relações comerciais com países latino-americanos diante da concorrência desleal da China e das mudanças nas regras comerciais dos Estados Unidos.
O primeiro-ministro afirmou que a colaboração entre Brasil e União Europeia pode transformar os dois continentes em potências na produção de alimentos, não apenas para abastecer suas populações, mas também para exportar ao mercado mundial. Assim, o acordo Mercosul-União Europeia aparece como instrumento estratégico para ampliar alianças comerciais e consolidar cadeias de suprimentos confiáveis, alinhadas à busca por maior autonomia econômica e segurança estratégica, prioridades da liderança europeia.