O Grupo Gennius, controlador de marcas como Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, ingressou com pedido de recuperação judicial, alegando enfrentar uma série de dificuldades econômicas e financeiras que comprometeram sua estrutura de capital e liquidez nos últimos anos. Em seu documento, a holding detalha três fatores principais que contribuíram para essa crise, destacando o impacto da pandemia de Covid-19, as mudanças no comportamento do consumidor e o cenário macroeconômico adverso.
O primeiro motivo apontado pelo grupo para a necessidade de reestruturação é a pandemia de Covid-19, ocorrida entre 2020 e 2022. Segundo o documento, durante esse período, houve um descompasso entre os investimentos realizados pelo Grupo Gennius, especialmente na abertura de novas lojas em centros comerciais e áreas urbanas de grande circulação, e a receita obtida. A estratégia de expansão, focada em locais de alta aglomeração, foi severamente afetada pelas restrições sanitárias e pelo subsequente impacto na circulação de consumidores. Ainda que as restrições tenham sido posteriormente flexibilizadas, os efeitos permanentes da pandemia continuaram a afetar o funcionamento do grupo.
Um dos efeitos destacados foi a mudança no modelo de trabalho, com a adoção do trabalho híbrido e remoto, que reduziu o fluxo de pessoas nos centros urbanos e, consequentemente, o número de consumidores que frequentavam as lojas durante seus deslocamentos diários. Além disso, o grupo aponta que a pandemia acelerou uma transformação nos hábitos de consumo, com maior preferência por entregas e pedidos por plataformas de marketplace, que embora tenham sido aliadas na venda de produtos, comprimiram as margens de lucro dos restaurantes físicos. Essa mudança gerou uma redução na frequência de visitas às lojas físicas, impactando negativamente os resultados operacionais do grupo.
O segundo fator destacado refere-se ao cenário macroeconômico, especialmente ao aumento abrupto da taxa básica de juros, a Selic, que atingiu 15% ao ano em determinados períodos. Essa elevação elevou substancialmente os custos de captação de recursos necessários à manutenção das operações, administração do capital de giro e pagamento de obrigações financeiras. Como consequência, o grupo relata que as dívidas contraídas, muitas delas durante a pandemia, tiveram suas taxas de juros elevadas de forma inesperada, agravando o endividamento e dificultando a gestão financeira. Atualmente, a dívida bancária do Grupo Gennius ultrapassa R$ 300 milhões, envolvendo várias instituições financeiras.
O elevado endividamento passou a consumir uma parcela significativa do fluxo de caixa gerado pelas operações, limitando investimentos e restringindo a flexibilidade financeira do grupo. Essa situação resultou em inadimplências com fornecedores e dificuldades operacionais, agravando o quadro de desequilíbrio econômico-financeiro. Como medida inicial para tentar mitigar a crise, o grupo solicitou, antes mesmo do pedido formal de recuperação, a concessão de tutelas cautelares de urgência, buscando suspender cobranças e execuções judiciais relacionadas às dívidas, o que ajudou a criar um ambiente mais favorável às negociações com credores.
Contudo, apesar do período de proteção patrimonial de 60 dias ter proporcionado algum alívio financeiro e favorecido negociações coletivas, o grupo reconhece que essa estratégia não foi suficiente para resolver seus problemas. Assim, decidiu pela necessidade de uma reestruturação global de seu endividamento, considerando a recuperação judicial como a alternativa mais eficiente para garantir a continuidade do negócio.
O Grupo Gennius afirma que essa medida faz parte de seu processo de reestruturação financeira, com o objetivo de preservar a sustentabilidade e promover a evolução de suas operações a longo prazo. A empresa também destaca sua experiência no setor alimentício e a recuperação do mercado após o aumento expressivo das taxas de juros, o que reforça a viabilidade econômico-financeira do grupo. A expectativa é que, com a reestruturação, seja possível superar o momento de crise e garantir a retomada do crescimento das marcas sob sua gestão.