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Minaçu, Goiás, se torna palco da disputa global por terras raras e o futuro mineral do Brasil

•Reprodução

Minaçu, município localizado no estado de Goiás, que por décadas viveu economicamente da extração de amianto, agora se encontra no centro de uma nova disputa internacional por minerais estratégicos. A cidade, que há pouco mais de um ano passou a produzir terras raras, especialmente magnéticas, tornou-se uma peça-chave na competição entre Estados Unidos e China pelo controle de recursos essenciais para a economia do século XXI. O Brasil, detentor de uma das maiores reservas mundiais de terras raras, possui aproximadamente 21 milhões de toneladas, ficando atrás apenas da China, que tem reservas pouco superiores a esse volume. Contudo, a produção brasileira, em torno de 2 mil toneladas em 2025, ainda é mínima quando comparada às 270 mil toneladas produzidas pela China no mesmo período, uma diferença que vai além da geologia e reflete o desenvolvimento da indústria de refino e transformação desses minerais.

A presença de Minaçu no cenário internacional ganhou destaque com a operação da Serra Verde, uma mina de terras raras que entrou em produção comercial em 2024. Sua importância estratégica aumenta pelo fato de produzir terras raras magnéticas fora da Ásia, uma região que domina praticamente toda a cadeia de valor desses minerais. Em abril, a USA Rare Earth anunciou um acordo de aquisição da mina por aproximadamente US$ 2,8 bilhões, uma operação que inclui um financiamento de até US$ 565 milhões fornecido pela agência americana Development Finance Corporation (DFC). Além disso, há um contrato de 15 anos para a compra contínua da produção, apoiado por capital público e privado dos Estados Unidos, o que evidencia a preocupação de Washington em reduzir sua dependência de minerais de origem chinesa.

A disputa por terras raras revela que o controle desses minerais vai muito além da extração mineral. Para os Estados Unidos, a dependência de minerais estratégicos também significa dependência de tecnologia, indústria e poder militar. A China, por sua vez, construiu sua hegemonia na área há décadas, não apenas por possuir reservas, mas por dominar processos de separação, refino e transformação, o que lhe confere uma posição dominante na cadeia de valor. Segundo dados da Agência Internacional de Energia, a China responde por cerca de 91% do refino mundial de terras raras magnéticas e por 94% da produção de ímãs permanentes sinterizados, componentes essenciais para diversas tecnologias modernas, como veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa e data centers.

O principal risco para o Brasil reside na sua história de dependência de minerais que, após extraídos, deixam o valor agregado longe de suas fronteiras. Durante décadas, Minaçu viveu do amianto, mineral que gerou empregos e riqueza, mas também deixou um passivo ambiental e social pesado. Agora, com a chegada das terras raras, há uma oportunidade de mudar essa trajetória, mas o desafio é estrutural: o país precisa avançar além da simples extração mineral, investindo em beneficiamento, refino e tecnologia de transformação. O governo brasileiro iniciou neste ano a elaboração de uma Estratégia Nacional de Terras Raras, que pode ser uma das decisões mais relevantes para a indústria nacional nas próximas décadas.

A disputa entre China e Estados Unidos por esses minerais oferece ao Brasil uma oportunidade única de negociação. Quem possui recursos estratégicos pode escolher parceiros, exigir transferência de tecnologia, formar engenheiros, criar centros de pesquisa e usar o investimento estrangeiro para subir na cadeia de valor. Ainda assim, há o risco de que o país continue a extrair minerais sem agregar valor, perpetuando uma dependência que já se mostrou prejudicial na história recente de Minaçu. Se o Brasil não aproveitar o potencial das terras raras de forma estratégica, poderá, tarde demais, perceber que mudou de minério, mas permaneceu na mesma posição na economia global.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade