*Este artigo é de autoria da professora Grace Carroll, especialista em Comportamento e Bem-estar Animal, da Queen’s University Belfast, na Irlanda, e foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.
A domesticação dos cães e gatos resultou em uma diversidade notável, mas também trouxe à tona uma curiosa semelhança entre esses animais, o que pode ter sérias consequências para sua saúde e bem-estar, de acordo com uma nova pesquisa.
À primeira vista, os gatos persas e os cães da raça pug podem parecer completamente diferentes. Um é um felino e o outro um canino, separados por 50 milhões de anos de evolução. No entanto, ao escanear 1.810 crânios de gatos, cães e seus parentes selvagens, a bióloga evolucionária Abby Grace Drake e sua equipe descobriram algo intrigante. Apesar de suas trajetórias evolutivas distintas, várias raças de cães e gatos exibem uma notável semelhança na estrutura craniana.
Na biologia evolutiva, a divergência é um fenômeno comum. Em termos simples, divergência ocorre quando dois organismos com um ancestral comum se tornam progressivamente diferentes ao longo do tempo, enquanto a convergência se refere ao processo de se tornarem mais semelhantes. À medida que as populações se separam e se adaptam a diferentes ambientes, novas características surgem, o que se denomina evolução divergente.
Esse processo é uma das principais formas pelas quais novas espécies desenvolvem traços distintos, resultando em caminhos evolutivos separados. No entanto, a evolução também pode seguir uma direção diferente. A convergência ocorre quando espécies não relacionadas, moldadas por pressões evolutivas semelhantes, desenvolvem características semelhantes de modo independente.
No caso de gatos domésticos, cães e várias outras espécies domesticadas, a interferência humana, tanto intencional quanto acidental, parece ter levado a essa convergência, fazendo com que diferentes espécies adquirissem características semelhantes.
Embora cães e gatos tenham uma longa história de separação evolutiva, raças com fisionomias achatadas, como os persas e os pugs, apresentam estruturas cranianas que se assemelham. Para investigar até que ponto a domesticação alterou as características do crânio dos animais, Drake e sua equipe analisaram digitalizações em 3D de crânios de espécimes de museus, escolas de veterinária e arquivos digitais. O conjunto de dados incluía gatos domésticos de várias raças, como siameses, Maine Coons e persas, além de mais de 100 raças de cães, que variam de focinhos curtos, como os pugs, a focinhos longos, como os collies.
As descobertas revelaram que a domesticação não apenas ampliou a diversidade dos formatos cranianos em comparação com a variação observada entre lobos e gatos selvagens, mas também levou algumas raças a se assemelharem entre si, com padrões de convergência para faces longas ou achatadas. Os canídeos selvagens, que incluem cães, lobos, raposas e chacais, tendem a apresentar crânios alongados semelhantes, enquanto os felídeos selvagens, como gatos, leões, tigres e onças, demonstram uma variação mais natural.
Entretanto, as raças domésticas de ambas as espécies agora abrangem uma gama mais extrema em ambas as extremidades da escala. Essa tendência se torna evidente com a criação de gatos projetados para se assemelhar a cães da raça XL bully.
A domesticação tem mostrado que, quando os humanos intervêm, até mesmo espécies distantes podem acabar se parecendo e, em alguns casos, enfrentando dificuldades semelhantes. A reprodução seletiva acentua características nas espécies. Além disso, muitas intervenções humanas podem fazer com que os animais atinjam pesos que seus corpos não conseguem suportar naturalmente. Um exemplo é a criação de galinhas para consumo de carne, que podem ter 30% de seu peso corporal em músculos peitorais, resultando frequentemente em problemas cardíacos e respiratórios.
A preferência humana por animais de estimação com rostos achatados está ligada a instintos fundamentais. Os seres humanos são predispostos a reagir a traços infantis, como cabeças arredondadas, narizes pequenos e olhos grandes e baixos. Essas características, que são exageradas em muitas raças de cães e gatos de face achatada, imitam a aparência de bebês humanos.
Entre todas as espécies animais, os humanos são um dos mais altricias, significando que nascemos vulneráveis e dependentes de cuidadores. Essa característica é compartilhada com filhotes de cães e gatos. Por outro lado, os animais precociais conseguem ver, ouvir, ficar em pé e se mover logo após o nascimento. A dependência dos bebês humanos em relação aos adultos moldou nossa evolução para sermos sensíveis a sinais de vulnerabilidade e necessidade.
Esses sinais, como as bochechas arredondadas e os olhos grandes dos bebês, são conhecidos como liberadores sociais, que instigam comportamentos cuidadores nos adultos, como falar em tons mais agudos ou oferecer cuidados parentais. As gaivotas-prateadas, por exemplo, têm filhotes que bicam uma mancha vermelha no bico dos pais, levando o adulto a regurgitar alimento. Essa mancha funciona como um sinal social, garantindo que as necessidades do filhote sejam atendidas no momento adequado. De forma semelhante, os animais domesticados efetivamente utilizaram mecanismos antigos de cuidado que evoluíram para nossa própria prole.
Essas características podem proporcionar aos animais de estimação uma vantagem na busca por cuidados e atenção humanos, mas isso também acarreta custos.
No Reino Unido, o governo designou seu Comitê de Bem-Estar Animal para oferecer consultoria especializada sobre questões emergentes relacionadas ao bem-estar dos animais. Em relatórios de 2024, o comitê expressou preocupações sérias sobre os efeitos da reprodução seletiva em cães e gatos. Os documentos ressaltaram que a criação de animais com traços físicos extremos, como rostos achatados e crânios exagerados, resultou em problemas de saúde generalizados, incluindo dificuldades respiratórias, condições neurológicas e complicações no parto.
O comitê defende que animais com doenças hereditárias graves não devem ser utilizados para reprodução e solicita regulamentações mais rigorosas para os criadores. Sem essas reformas, muitas raças populares continuarão a sofrer com doenças evitáveis que comprometem sua qualidade de vida.
A reprodução seletiva demonstrou a facilidade com que os humanos podem moldar a natureza de acordo com suas preferências e a rapidez com que milhões de anos de evolução podem ser revertidos em apenas algumas décadas de seleção artificial. Ao escolhermos animais de estimação que possuem características que lembram os rostos de nossos bebês, muitas vezes, sem perceber, selecionamos traços que podem prejudicar a saúde dos animais. Compreender as forças que impulsionam a convergência entre as espécies nos lembra do papel poderoso e, por vezes, perigoso que desempenhamos na formação da vida animal.
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