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Medidas de proteção ineficazes colocam em risco golfinhos e baleias

Julio Cardoso/Projeto Baleia à Vista

*Este artigo é uma colaboração entre o pós-doutorando Guilherme Maricato, a professora de Ecologia Maria Alice S. Alves e o professor Rodrigo Tardin, todos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além do professor associado Clinton Jenkins, da Florida International University, nos EUA. Ele foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.

O oceano enfrenta um crescente estado de vulnerabilidade devido às atividades humanas. Desde o transporte marítimo até a exploração de petróleo e gás, passando pela poluição urbana, as ações cotidianas têm um impacto cumulativo no ambiente marinho. Pesquisas indicam que essa combinação de estressores representa uma das mais sérias ameaças à vida marinha, com potencial de afetar a biodiversidade em uma escala global.

Para tentar resguardar o oceano, as Unidades de Conservação marinhas surgem como uma das principais estratégias. Mas será que elas realmente protegem as espécies nos locais mais críticos?

Na busca por responder a essa pergunta no Brasil, realizamos um estudo abrangente como parte da tese de doutorado de Guilherme Maricato, no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com a colaboração de várias instituições.

Nosso foco recaiu sobre duas espécies essenciais: a baleia-de-bryde, uma espécie que não migra, e o golfinho-nariz-de-garrafa, que habita tanto águas costeiras quanto oceânicas ao redor do mundo. A escolha dessas espécies se deve à sua particular vulnerabilidade aos impactos humanos.

Infelizmente, os resultados são alarmantes: nossas descobertas, recentemente publicadas na revista Marine Pollution Bulletin, revelam que as áreas vitais para a sobrevivência dessas espécies também estão entre as mais ameaçadas.

Por meio de análises espaciais, especialmente modelos de distribuição de espécies, investigamos as preferências desses animais. Cruzamos milhares de registros de ocorrência de baleias-de-bryde e golfinhos-nariz-de-garrafa com dados ambientais que influenciam sua presença, como temperatura da água, profundidade e produtividade oceânica, um indicador crucial de alimento.

Com essa análise, elaboramos um mapa que destaca as áreas mais adequadas para as espécies em questão. Os resultados mostram, de forma inequívoca, que a região sudeste do Brasil é a “área preferida” para esses animais. Essas zonas, que se localizam em águas mais rasas na plataforma continental, são ricas em nutrientes e frequentemente associadas a águas mais frias e encostas íngremes do fundo do mar, que trazem alimento à superfície.

Contudo, as “áreas preferidas” que identificamos não são exclusivas para baleias e golfinhos. O sudeste é também uma região de grande relevância econômica para o Brasil, impulsionada pelas atividades nas bacias de Santos e de Campos, onde um novo poço de petróleo foi recentemente descoberto.

Na segunda fase da pesquisa, sobrepomos nosso mapa de áreas adequadas para as espécies com um mapa de atividade humana, que inclui a presença de portos, blocos de exploração de petróleo e gás e rotas de embarcações. O resultado foi uma sobreposição quase perfeita: as áreas onde baleias-de-bryde e golfinhos-nariz-de-garrafa são mais frequentemente encontrados coincidem com os locais de maior atividade humana.

Nos últimos anos, o Brasil aumentou sua cobertura de proteção ao criar quatro grandes áreas de conservação marinha, o que é um avanço significativo. No entanto, a questão central é a efetividade dessa proteção.

Em 2024, participamos de um esforço colaborativo global, cujos resultados foram publicados na revista Marine Policy. Eles mostraram que a maioria das áreas demarcadas como protegidas no Brasil, na verdade, permite atividades que não são compatíveis com a conservação da biodiversidade.

Essa falha de qualidade também se confirmou em nosso estudo. Verificamos que a maioria das Unidades de Conservação marinhas no Sudeste, mesmo as mais eficazes, são costeiras, deixando de proteger as áreas adequadas para as espécies, que estão mais vulneráveis à exploração de petróleo e gás.

E quanto às áreas oceânicas protegidas criadas pelo Brasil? Muitas delas estão localizadas em regiões que não são as mais adequadas para essas duas espécies ou onde não há conflitos com a atividade humana. Na prática, surge a questão: estamos realmente protegendo os locais certos ou deixando as áreas mais críticas de biodiversidade e conflito desprotegidas?

O risco de colisão com embarcações é constante. Baleias e golfinhos necessitam vir à superfície para respirar e, em áreas de intenso tráfego como o sudeste, a probabilidade de serem atingidos por barcos é elevada. Além disso, o ruído contínuo – tanto dos motores de navios quanto da exploração de petróleo e gás – interfere na orientação, comunicação e busca de alimento por esses animais.

Adicionalmente, o emalhe em redes de pesca, especialmente em áreas com intensa atividade pesqueira, acarreta em capturas acidentais (bycatch). Por fim, a poluição proveniente de portos e derramamentos de óleo pode comprometer a saúde dos animais e enfraquecer seus sistemas imunológicos.

Nosso mapa final, denominado “índice de exposição”, sintetiza a situação: as áreas em azul-escuro representam os locais mais adequados para os animais, onde há maior concentração de estressores e a proteção é insuficiente.

Nossas descobertas são um alerta crucial. Não basta apenas criar Unidades de Conservação marinhas; elas devem estar situadas nos locais corretos, garantindo proteção às espécies em suas áreas mais vulneráveis. É urgente revisar as estratégias de conservação no Brasil.

Além de fortalecer a rede de Unidades de Conservação marinhas, é fundamental implementar ações de manejo específicas para mitigar os conflitos. A redução da velocidade de navios pode proteger as baleias de colisões, enquanto a criação de zonas de exclusão de pesca e o uso de repelentes acústicos podem evitar que golfinhos se prendam em redes.

Entretanto, o mais crucial é que essas ações sejam implementadas nas áreas de maior exposição, para que a conservação seja realmente eficaz. Proteger a biodiversidade e manter a atividade econômica é um desafio complexo, mas agora temos um mapa que pode iniciar essa discussão.

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Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade