Uma análise internacional realizada nos últimos seis anos aponta uma diminuição na idade dos indivíduos envolvidos em atos de agressão e crimes cibernéticos em redes sociais e transmissões ao vivo. Entre 2020 e 2026, a faixa etária dos suspeitos variou de 19 a 22 anos, indicando uma tendência de jovens cada vez mais novos praticando esses delitos. O estudo, conduzido pelos pesquisadores Marc-André Argentino e Angus Lindsay e publicado na revista especializada CTC Sentinel, do Combating Terrorism Center da Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos, também revela que a média de idade das vítimas é de 14 anos.
O levantamento, que abrange 33 países incluindo o Brasil, evidencia que menores de idade têm sido alvo de diversos tipos de crimes, como abuso sexual, incitação ao suicídio e automutilação, extorsão, maus-tratos a animais e compartilhamento de material de abuso infantil. Os dados indicam que a maioria dos agressores são do sexo masculino, representando 94,6% dos casos, com uma prevalência crescente de menores entre 11 e 16 anos entre 2021 e 2026.
A pesquisa utilizou informações de uma rede internacional de crimes cibernéticos conhecida como “The Com”, considerada um “ecossistema violento” alimentado por ódio e pessimismo. Fundado em 2020 por um adolescente de 15 anos nos Estados Unidos, o grupo utilizava redes sociais, jogos online com chat e plataformas de mensagens para buscar vítimas. Desde seu início, a rede foi responsável por 295 prisões em 33 países, impactando pelo menos 5.375 pessoas e entidades. Entre os crimes registrados estão 22 mortes, 1.747 vítimas de extorsão, 1.754 trotes envolvendo chamadas falsas a serviços de emergência, além de 1.633 crimes cibernéticos e 143 casos de mutilação de animais.
A análise também revelou que a média de idade dos infratores é de 19 anos, mas essa média vem diminuindo ao longo do tempo. Especialistas destacam que comportamentos considerados comuns entre esses suspeitos incluem traços de niilismo e isolamento social, embora nem todos possam ser classificados como psicopatas. O psiquiatra Daniel Barros, colaborador da Faculdade de Medicina da USP, comenta que muitos desses indivíduos apresentam características de vulnerabilidade, como depressão ou experiências de bullying, que podem predispor ao envolvimento com grupos criminosos virtuais.
A Operação Lívia, realizada em agosto deste ano em oito estados brasileiros, reforça a preocupação com o impacto das redes sociais na criminalidade. A ação resultou na apreensão de quatro menores de idade, entre 13 e 17 anos, e um jovem de 18 anos, além da investigação de uma jovem de 13 anos que cometeu suicídio no Mato Grosso do Sul. Como consequência, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu as transmissões ao vivo na plataforma Discord, após denúncias de disseminação de conteúdos de automutilação, suicídio e maus-tratos a animais.
O Discord, plataforma de mensagens e transmissões ao vivo, tem sido alvo de críticas e ações judiciais. A Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com uma ação civil pública pedindo uma multa de R$ 500 milhões contra a plataforma, que nega irregularidades e afirma que o suicídio mencionado não ocorreu em uma live na sua plataforma, além de alegar que conteúdos violentos foram removidos. Dados da SaferNet apontam um aumento de 54% nas denúncias envolvendo o Discord de janeiro a julho de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025, refletindo um crescimento recorde na quantidade de relatos de atividades ilícitas na plataforma.
Relatórios técnicos e bases de dados oficiais indicam que, apesar de 41% das remoções de conteúdo relacionadas à proteção de menores envolverem o Discord, houve uma redução de 65% na quantidade de decisões de moderação a partir de setembro de 2025, coincidindo com cortes de pessoal na plataforma. No Brasil, entre 2017 e julho de 2026, mais de 2.000 URLs relacionadas ao Discord foram denunciadas, com um aumento expressivo de denúncias em 2025 e nos primeiros meses de 2026.
Jovens, muitas vezes nativos digitais, utilizam múltiplos aplicativos simultaneamente para praticar crimes, incluindo o compartilhamento de vídeos de abuso infantil, automutilação e automutilação, além de recrutamento de vítimas por meio de perfis abertos, mensagens cifradas e grupos fechados em plataformas como Telegram e WhatsApp. Os criminosos organizam suas ações em hierarquias, com funções que envolvem recrutamento, financiamento, chantagem e administração de grupos, onde o uso de linguagem cifrada é comum para evitar detecções.
Especialistas destacam que a formação desses grupos muitas vezes ocorre em contextos de exclusão social, bullying e vulnerabilidade emocional, fatores que aumentam o risco de jovens se envolverem com atividades criminosas na internet. Os atos de maus-tratos a animais, considerados porta de entrada para crimes mais graves, têm registrado aumento de 120% na internet brasileira entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026, sendo tratados como crimes ambientais com penas que variam de três meses a cinco anos de detenção.
No âmbito legal, menores envolvidos em delitos online são considerados atos infracionais, passíveis de medidas socioeducativas, como prestação de serviços à comunidade ou internação, dependendo da gravidade. Crimes relacionados ao incentivo ao suicídio ou automutilação, por sua vez, podem resultar em penas de até seis anos de reclusão, conforme o Código Penal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. As plataformas de redes sociais, como o Discord, continuam sendo palco de desafios na proteção de menores, com estudos indicando que uma parcela significativa de jovens expostos a conteúdos de automutilação e violência online começa a se envolver com esses materiais antes dos 14 anos, muitas vezes sem a devida fiscalização dos responsáveis.