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Darren Aronofsky fala sobre a Nova York de ‘Ladrões’: ‘Era o ápice da humanidade’

“Há quanto tempo não conversamos, Roberto! Como você está?” Uma das surpresas mais agradáveis na carreira de um jornalista é quando um entrevistado recorda uma conversa anterior. Ao iniciar meu bate-papo com Darren Aronofsky sobre “Ladrões”, o diretor de Nova York não apenas relembrou nosso encontro no Brasil durante o lançamento de “mãe!”, mas também fez menção aos dias em que visitei o set de “Fonte da Vida”, em 2006. Incrível.

É claro que o Aronofsky que fala comigo agora não é exatamente o mesmo de antes. Embora a essência dele permaneça, o ambiente é diferente. O cineasta, que ganhou notoriedade no início dos anos 2000 com o filme experimental “?”, parecia mais à vontade, trocando sua habitual intensidade por um humor afiado e uma abertura inesperada para discutir seu novo projeto. Como ele mesmo brincou em um evento recente, também sabe ser divertido!

Esse clima descontraído o levou a revisitar “Caught Stealing”, um livro de Charlie Huston publicado em 2004, que retrata a intensa confusão na vida de Hank Thompson, um bartender em Nova York no final dos anos 90. “Quando li o livro há quinze anos, achei que capturava um momento vibrante e cheio de vida na cidade”, recorda Aronofsky. “Na época, não consegui os direitos, até que Charlie me procurou há uns três anos para saber se ainda tinha interesse.”

A partir desse contato, Huston e Aronofsky passaram mais um ano desenvolvendo o roteiro para capturar não apenas a energia dos personagens, mas também a atmosfera de Nova York naquela época, um período talvez menos complicado e culturalmente mais rico. “O mundo inteiro era menos complexo”, diverte-se o diretor, sorrindo.

“Imagino Nova York no final do milênio como o ápice da humanidade”, ele continua. “Reflita: a maior ameaça que o planeta enfrentava era o bug do milênio, e o presidente estava apenas lidando com um escândalo extraconjugal.” Darren também menciona que, culturalmente, o ambiente era diferente: “O punk estava em alta, o grunge dominava, o hip hop era um fenômeno, e a música eletrônica começava a despontar. Havia um imenso potencial e esperança para o novo milênio.”

Curiosamente, para capturar essa época, Aronofsky buscou referências ainda mais profundas no passado. Não só na arquitetura da cidade, que foi adaptada para as filmagens nas ruas, mas também na “nova Hollywood” e no cinema mais visceral dos anos 70. “O grande cineasta nova-iorquino Sidney Lumet (que, na verdade, nasceu na Filadélfia) fez filmes incríveis sobre a cidade, como ‘Um Dia de Cão'”, observa. “Ele foi uma grande influência para ‘Ladrões’.”

Outra influência, mais explícita, foi a comédia neo-noir sombriamente absurda “Depois de Horas”, dirigida por Martin Scorsese em 1985. “Ladrões” não só incorporou o senso de caos urbano da geografia do submundo de Nova York, mas também trouxe Griffin Dunne, o protagonista do filme de Scorsese, para um papel crucial. “Por uma incrível coincidência, descobri ontem à noite que seu personagem em ‘Depois de Horas’ se chama Paul, e em nosso filme também é Paul”, Aronofsky se diverte. “Eu honestamente nunca havia percebido isso.”

Se Griffin Dunne é uma ponte com o passado, Austin Butler representa o futuro. “Vejo um potencial imenso nele”, elogia o diretor. “Austin é como uma nova e emocionante história que o público ainda não descobriu por completo.” Darren destaca a diferença entre os personagens intensos que o ator interpretou em “Elvis” e “Duna: Parte Dois” em comparação com seu novo papel: “Austin traz muito de si mesmo para Hank Thompson em ‘Ladrões’. Ele é um grande ator e uma pessoa incrível. Espero poder trabalhar com ele novamente.”

Adaptar “Ladrões” deu a Aronofsky a oportunidade de revisitar uma Nova York que ele conhece bem, especialmente depois de ter filmado “?” em galpões no Brooklyn, onde nasceu. Quando pergunto como foi retornar a essa Nova York ficcional, em contraste com a realidade atual, ele é direto. “O East Village não mudou tanto, ainda é um bairro muito jovem e mantém uma energia incrível”, enfatiza, antes de concluir. “Não há prédios com porteiros no Village, então é difícil gentrificar o bairro.”

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade