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Polvo versus Golfinho: Como Avaliar a Inteligência de Cada um?

Getty Images

O oceano é lar de criaturas surpreendentes, cujas habilidades desafiam a compreensão humana. Entre as espécies mais notórias em termos de inteligência estão os golfinhos e os polvos, mas qual deles realmente se destaca nesse quesito?

A noção de inteligência em seres marinhos é ampla e complexa de avaliar. “Não existe uma definição universal de inteligência que se aplique a todas as espécies”, esclarece Eduarda Pelizzari Camilo, professora de biologia do Colégio Católica de Curitiba. Segundo ela, especialistas em etologia cognitiva e psicobiologia comparada utilizam testes de comportamento para deduzir capacidades cognitivas.

Os métodos mais frequentes incluem testes de resolução de problemas, como abrir recipientes ou manipular objetos para obter recompensas, além do teste do espelho, que avalia a autoconsciência. Golfinhos são uma das poucas espécies marinhas que conseguem passar nesse teste. Em contrapartida, os polvos não demonstram reconhecimento no espelho, mas possuem habilidades notáveis em memória espacial e resolução de problemas.

Outros aspectos considerados envolvem comunicação e aprendizado social, especialmente entre espécies que vivem em grupos. “A transmissão cultural de comportamentos, como técnicas de caça, é um forte indicativo de inteligência social”, complementa a professora.

Os polvos possuem cerca de 500 milhões de neurônios, mais da metade dos quais está distribuída em seus braços, que funcionam como “cérebros” independentes. “Isso muda nossa percepção sobre centralidade neural. Esses neurônios não são apenas motores; eles também participam de processos táteis, espaciais e até decisórios”, afirma o biólogo Fabiano de Abreu Agrela.

Um dos comportamentos mais intrigantes é a habilidade dos polvos de antecipar soluções. Eles conseguem abrir potes, escapar de labirintos e se camuflar de acordo com o ambiente. Além disso, conforme Eduarda, esses animais mostram formas complexas de aprendizado, tanto associativo quanto não-associativo, podendo associar estímulos a recompensas ou punições e ajustar seu comportamento com base em experiências passadas.

Esses seres também apresentam uma memória espacial aguçada e, em algumas situações, aprendem observando outros polvos, algo raro entre invertebrados, que requer atenção seletiva e transferência de informações.

Enquanto os polvos se destacam por sua autonomia e capacidade de resolver problemas individuais, os golfinhos brilham em inteligência social. Com entre 3,5 e 5 bilhões de neurônios, eles possuem um córtex cerebral altamente desenvolvido, especialmente nas áreas relacionadas à cognição social e ecolocalização.

“O golfinho cria cultura. Ele ensina comportamentos a seus filhotes, organiza caçadas em grupo e responde a comandos simbólicos”, explica Fabiano. Um exemplo é o uso de esponjas marinhas para proteger o focinho durante a caça, um comportamento que é aprendido e transmitido entre gerações.

A comunicação é outro aspecto notável. Os golfinhos utilizam uma variedade de vocalizações, como assobios, estalos e sons pulsados, cada um com funções comunicativas distintas. “Cada indivíduo tem um assobio único, funcionando como um ‘nome’, que permite a identificação dentro do grupo”, detalha Eduarda.

Esses animais também demonstram imitação vocal, memória de longo prazo e a capacidade de integrar sinais táteis, visuais e sonoros. Por exemplo, saltos e batidas de cauda ajudam a fortalecer laços sociais ou coordenar ações coletivas.

A resposta à questão da inteligência depende do tipo analisado. “A comparação deve ser feita com cautela”, alerta Eduarda, pois ambos os animais seguiram trajetórias evolutivas muito distintas. Enquanto os polvos evoluíram como invertebrados solitários, com um sistema nervoso descentralizado voltado para a exploração e resolução de problemas, os golfinhos se desenvolveram em sociedades complexas, com foco na comunicação, cooperação e transmissão do conhecimento.

“O polvo representa uma forma não vertebrada de inteligência distribuída e adaptativa, voltada para a manipulação física, mimetismo e evasão. Por outro lado, o golfinho expressa uma inteligência vertebrada social, com uma forte carga emocional, autoconsciência e linguagem complexa”, resume o biólogo.

Portanto, a questão não é quem é mais inteligente, mas sim em quais aspectos cada um se sobressai. Se a autonomia, memória espacial e resolução de problemas físicos são os critérios, o polvo leva a vantagem. Já se a comparação envolve comunicação e consciência de identidade, o golfinho se aproxima mais da inteligência humana.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade