A Fiocruz e a Universidade Federal de Goiás (UFG) promoveram, nos dias 14 e 15 de outubro, em Goiânia (GO), o seminário Vigilância Integrada no Cerrado: Ciência, Território e Tomada de Decisão para a Sociobiodiversidade. O encontro reuniu movimentos sociais, pesquisadores, gestores públicos e estudantes para discutir a criação de um modelo de vigilância ativa, integrada, multissetorial, multiescalar, multitemporal e participativa, voltado à proteção do bioma e das populações que vivem em seus territórios.
Realizado em formato híbrido, o evento alcançou aproximadamente 2 mil visualizações na transmissão online. A proposta apresentada pelos participantes é construir uma abordagem que tenha como ponto de partida os territórios dos povos originários e tradicionais e reúna informações ambientais, epidemiológicas, sociais e produtivas. A integração desses dados deve contribuir para o aprimoramento de políticas públicas de proteção e promoção do Cerrado.
O bioma ocupa mais de 20% do território brasileiro, abastece oito das 12 regiões hidrográficas do país e abriga uma das maiores sociobiodiversidades do planeta. Apesar de sua importância reconhecida pela ciência, o Cerrado e seus povos enfrentam pressões provocadas pelo avanço de um modelo de desenvolvimento considerado predatório, além de diferentes formas de violência.
“Este seminário nasce de uma preocupação que compartilhamos: como aproximar o conhecimento científico das decisões que afetam o Cerrado e a vida de suas populações?”, afirmou Daniela de Melo e Silva, vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da UFG.
Para Guilherme Franco Netto, coordenador de Saúde e Ambiente da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), a construção desse modelo exigirá mudanças profundas. Segundo ele, o processo deverá partir dos territórios e envolver transformações epistemológicas, institucionais, metodológicas e políticas.
Saúde coletiva orienta integração de informações
As mesas-redondas e os debates realizados durante o seminário apontaram que a vigilância precisa ser estruturada com base nos princípios da Saúde Coletiva. A avaliação considera as determinações sociais da saúde em um país marcado por desigualdades socioambientais e submetido aos efeitos da crise climática.
A professora Gislaine Luiz, do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da UFG, destacou que os impactos das mudanças climáticas não dependem apenas da intensidade dos fenômenos físicos. As condições sociais, ambientais, econômicas e territoriais influenciam quais grupos estão mais expostos, quais são mais vulneráveis e quais possuem recursos para enfrentar as consequências desses eventos.
Na avaliação da pesquisadora, a reunião de dados climáticos, ambientais, sociais e de saúde é fundamental para antecipar riscos e orientar respostas mais efetivas. O desafio, porém, está na superação da fragmentação histórica das instituições de pesquisa, ensino e gestão, que tradicionalmente organizam suas políticas de forma setorizada.
O pesquisador Marcelo Mendonça, do Laboratório de Estudos e Pesquisas das Dinâmicas Territoriais (Laboter) da UFG, afirmou que os povos do Cerrado nunca tiveram uma percepção fragmentada dos territórios. Maurício Monken, professor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), ressaltou que a fragmentação é criada pelas instituições para organizar disciplinas e setores, enquanto a vida ocorre de maneira integrada. Para ele, é necessário desenvolver metodologias territoriais capazes de compreender essa totalidade.
Comunidades são apontadas como referências sobre os territórios
Entre os pontos de convergência do seminário esteve a defesa de que os territórios devem ser o ponto de partida das ações de vigilância em saúde. A proposta também busca superar uma lógica colonial que historicamente trata esses espaços apenas como objetos de pesquisa. Os participantes defenderam que a academia e o poder público reconheçam os conhecimentos, os modos de vida e as tecnologias sociais desenvolvidas há séculos pelos povos originários e tradicionais.
Fernanda Savicki, pesquisadora da Fiocruz Ceará, afirmou que as comunidades são as maiores especialistas em seus próprios territórios e devem ser ouvidas sobre o que consideram relevante. Guilherme Franco Netto classificou esse conhecimento como uma forma de “inteligência territorial”. Marcelo Mendonça defendeu que a ciência deixe os limites dos campi e laboratórios e esteja presente no campo, em contato direto com as populações.
A pescadora artesanal Ana Ilda Nogueira, representante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), explicou que os moradores identificam alterações nos territórios a partir da observação cotidiana. Eles percebem, por exemplo, quando um rio utilizado para banho seca ou quando a água consumida apresenta sinais de contaminação.
Segundo Ana Ilda, as pesquisas são importantes, mas precisam produzir resultados que façam sentido para as comunidades. Entre as questões que devem orientar os estudos estão quais retornos serão oferecidos à população e de que maneira os resultados poderão ser utilizados pelos moradores.
O pesquisador Marcelo Firpo, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), defendeu uma revisão epistemológica das instituições científicas. Para ele, é necessário descolonizar a academia e produzir uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural, baseada em metodologias colaborativas e na construção conjunta com os povos e territórios.
Vigilância Popular em Saúde amplia participação comunitária
O seminário também apresentou experiências de pesquisadores acadêmicos e populares em diferentes regiões do país. Entre os exemplos discutidos estavam estudos sobre a presença de agrotóxicos na água e sobre a seca dos rios do Cerrado. Em alguns casos, as pesquisas foram iniciadas a partir de demandas das próprias comunidades, que já identificavam mudanças ambientais e o surgimento de adoecimentos em seus territórios.
Nessas experiências, a academia atuou no fortalecimento de processos locais de vigilância, contribuindo para a construção de metodologias, dados e informações em conjunto com as populações. A chamada Vigilância Popular em Saúde vem se consolidando no Brasil nos últimos anos, embora seus fundamentos estejam relacionados a práticas ancestrais de cuidado e observação dos territórios.
Valéria Santos, representante da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, explicou que o conhecimento local deve orientar onde, quando e o que será pesquisado. Fernando Carneiro, pesquisador da Fiocruz Ceará, afirmou que o conceito ganhou força durante a pandemia, mas que a prática de acompanhar e proteger os territórios é anterior a esse período.
Sandra Alves, liderança do Movimento Camponês Popular (MCP), alertou que a participação popular não significa necessariamente cogovernança. Segundo ela, ser consultado é diferente de governar em conjunto. A cogovernança ocorre quando as comunidades participam desde o início da definição dos problemas, das perguntas de pesquisa e dos caminhos para enfrentá-los.
Irânia Marques, representante da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde, também defendeu a presença das populações vulnerabilizadas nos espaços de decisão. Para ela, conhecer a identidade e a diversidade dos territórios deve orientar o planejamento das ações de vigilância. Sem governança participativa, afirmou, não é possível implementar adequadamente os serviços e as políticas de saúde necessários.
Redes de cooperação devem sustentar ações no bioma
Outro aspecto destacado foi a necessidade de formar redes que envolvam órgãos públicos, universidades, movimentos sociais e demais instituições relacionadas à proteção do Cerrado. Irânia Marques afirmou que toda essa rede precisa ser mobilizada para organizar ações de saúde em um território extenso e diverso.
Com base nos debates, os participantes defenderam que a vigilância integrada deixe de ser apenas uma ferramenta técnica de monitoramento de doenças, perigos e riscos. A proposta é transformá-la em um patrimônio público de proteção territorial, em mecanismo de prevenção de colapsos socioambientais, em instrumento de defesa de direitos coletivos e em política estratégica de adaptação às mudanças climáticas.
O seminário foi apresentado como o primeiro passo para a construção desse modelo. Guilherme Franco Netto afirmou que a expectativa é que o resultado do encontro sirva como orientador para a implementação efetiva da proposta. Marcelo Mendonça reforçou que a compreensão do Cerrado depende de uma análise integral dos territórios e de ações construídas a partir deles.
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