As bolsas de valores ao redor do mundo estão projetando sua maior queda semanal desde meados de julho, refletindo uma intensificação das tensões nos mercados globais de títulos, a persistência do impasse diplomático no Golfo Pérsico e o aumento dos preços do petróleo, que atingiram máximas de um mês. Esses fatores contribuíram para um cenário de maior aversão ao risco, elevando a volatilidade e pressionando os principais índices financeiros.
Na quarta-feira (19), o Tesouro dos Estados Unidos realizou uma intervenção surpresa ao recomprar títulos do governo, uma medida que inicialmente trouxe alívio às vendas desencadeadas por preocupações com a inflação elevada e o alta nas pressões fiscais. Contudo, essa ação não foi suficiente para conter a escalada dos rendimentos dos títulos do país, que retomaram sua trajetória de alta nesta sexta-feira (21). Os rendimentos dos títulos do Tesouro de 30 anos chegaram a cerca de 5,25%, enquanto os de 10 anos ficaram em aproximadamente 4,70%. Especialistas indicam que o limite crítico para os títulos de 30 anos estaria em torno de 5,30%, uma referência semelhante ao nível de 160 ienes que os formuladores de políticas japoneses consideram para o controle da política monetária.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que o governo poderia ampliar ainda mais as recompras de títulos e considerou a possibilidade de consolidar as finanças públicas. No entanto, analistas expressam ceticismo quanto à capacidade do governo de implementar cortes de gastos suficientes para reduzir um déficit orçamentário superior a 6% do Produto Interno Bruto (PIB). As despesas com juros, nesse ano, já atingiram US$ 1,2 trilhão, enquanto a dívida nacional ultrapassou os US$ 40 trilhões, reforçando a preocupação com a sustentabilidade fiscal.
O dólar, por sua vez, recuou para perto das mínimas de três meses, registrando uma queda de quase 1% nesta semana em relação às principais moedas. A valorização do petróleo também impactou o cenário econômico, com o Brent atingindo quase US$ 95 por barril, o maior valor em um mês, impulsionado pelas tensões no Golfo e pelas ameaças de sanções mais duras por parte dos Estados Unidos ao Irã. Os contratos futuros do Brent subiram aproximadamente 0,5%, fechando em US$ 94, enquanto o petróleo bruto americano avançou 0,4%, para US$ 87.
Nos mercados asiáticos, o índice Nikkei do Japão caiu 0,3%, acumulando uma perda de quase 4% na semana, a maior desde julho, enquanto os mercados da Coreia do Sul e de Taiwan apresentaram leves altas, mas também encerraram a semana em baixa. Na Europa, embora os índices tenham registrado ganhos iniciais modestos, o STOXX 600 deve fechar a semana com uma queda de cerca de 1%, marcando sua maior perda semanal desde julho. O índice global MSCI também se encaminha para sua maior retração desde o mesmo período.
Nos Estados Unidos, a temporada de resultados corporativos oferece algum suporte aos mercados, com os futuros do S&P 500 subindo 0,53% e os do Nasdaq, 0,8%. Uma das empresas de destaque na próxima semana será a Nvidia, cuja divulgação de resultados será um teste importante para as perspectivas do setor de inteligência artificial, especialmente em relação à demanda por infraestrutura e receita de data centers. Entretanto, o Walmart apresentou uma decepção ao registrar uma queda de 9% em suas ações após vendas abaixo do esperado, ilustrando as dificuldades enfrentadas por grandes varejistas diante de expectativas elevadas.
As tensões políticas também continuam a influenciar o cenário internacional. Scott Bessent reforçou as ameaças do governo dos EUA de impor as “sanções mais duras da história” ao Irã, o que elevou os preços do petróleo e dificultou as negociações para uma abertura do Estreito de Ormuz. Como consequência, o Brent atingiu seu pico em um mês, antes de uma realização de lucros reduzir os preços. Além disso, a insegurança fiscal dos EUA também impulsionou o mercado de ouro, que subiu 1,45% nesta semana, atingindo cerca de US$ 4.583 por onça, seu maior valor em quase três meses.
No mercado cambial, o dólar sofreu perdas generalizadas, com o índice do dólar caindo quase 0,9% na semana, para 98,74 pontos. O euro avançou 1,0%, cotado a US$ 1,1686, após atingir sua máxima em 14 semanas, enquanto o franco suíço registrou sua maior perda semanal desde janeiro, ao cotar a 0,7995 francos. O aumento da dívida dos EUA também levou investidores a buscarem ativos alternativos, como o bitcoin, que atingiu sua cotação mais alta em mais de dois meses, cotado a US$ 76.446, com valorização de quase 6% na semana, representando seu maior ganho em dois anos e meio.
Dados econômicos do Japão também reforçam expectativas de aumento da taxa de juros pelo Banco do Japão em setembro. A inflação ao consumidor acelerou em julho, impulsionada pelo repasse dos custos de importação, enquanto uma pesquisa no setor manufatureiro revelou aumento significativo nos novos pedidos. O mercado já precifica um aumento de 0,25 ponto percentual na taxa de juros, para 1,25%, aguardando um compromisso mais agressivo por parte das autoridades monetárias japonesas.