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Incertezas eleitorais, cenário fiscal e fatores externos impactam volatilidade da Bolsa brasileira

•Ilustração gerada por IA

A recente reversão do otimismo no Ibovespa não pode ser atribuída exclusivamente às eleições ou a fatores isolados, mas sim a uma combinação de elementos de incerteza que têm dominado a atenção dos investidores nos últimos dias. Segundo analistas do mercado financeiro, o período eleitoral naturalmente aumenta a volatilidade, uma vez que os investidores passam a trabalhar com diferentes cenários para a política econômica dos próximos anos, aguardando maior definição antes de ampliar suas posições no país.

Rafael Dadoorian, sócio fundador da Convexa Investimentos, explica que esse aumento na volatilidade é esperado durante o ciclo eleitoral. No entanto, ele destaca que, neste momento, o cenário é agravado por preocupações relacionadas ao cenário fiscal brasileiro. Para ele, o que realmente pesa na decisão de investidores é a incerteza quanto à trajetória das contas públicas, da dívida pública, dos juros e do crescimento econômico, mais do que o próprio processo eleitoral.

Desde o início do ano, a entrada recorde de capital estrangeiro impulsionou a alta do mercado de ações brasileiro. Contudo, fatores como a guerra no Oriente Médio e a alta dos juros nos Estados Unidos passaram a estimular uma postura mais defensiva entre os investidores, levando-os a reduzir posições de risco. Essa mudança de comportamento foi refletida na saída de recursos do país, com o Banco de Pagamentos Internacional (BofA) apontando que, até 17 de agosto, investidores estrangeiros já haviam retirado mais de R$ 18 bilhões do Brasil, configurando o pior resultado mensal da série histórica da consultoria Elos Ayta.

A pesquisa de gestores de fundos do BofA também revelou que o sentimento dos investidores internacionais em relação às ações brasileiras se tornou mais pessimista, ou seja, mais bearish, na expressão do mercado financeiro. Gustavo Cruz, CIO e estrategista-chefe da Sincra, observa que a eleição também contribui para afastar investidores, que preferem aguardar o resultado do pleito antes de realizar novas apostas no mercado.

Segundo Rafael Figueredo, estrategista de ações da XP, o Ibovespa deve permanecer relativamente estável no curto prazo, uma vez que a cautela dos investidores está relacionada à indefinição e ao excesso de informações gerados pelo período eleitoral. Ele destaca que o ruído de informações faz com que a postura seja mais defensiva, embora reconheça que a volatilidade ainda pode aumentar consideravelmente, uma vez que o cenário político ainda não apresentou sinais de estabilização.

Apesar de admitir que a eleição é um fator comprovado de volatilidade, os analistas indicam que ainda é prematuro afirmar que ela seja o principal motivo para a saída de recursos estrangeiros da Bolsa brasileira. Para Figueredo, uma questão importante é que o Brasil não está diretamente relacionado à pauta de inteligência artificial (IA) no momento, o que diminui o apelo do país para investidores que buscam oportunidades ligadas a esse setor específico.

Ele observa que o cenário global tem se tornado “monotemático”, com maior atenção às gigantes da tecnologia, denominadas hyperscalers, que investem bilhões na infraestrutura de IA. Após resultados corporativos considerados fortes no segundo trimestre, as empresas do índice S&P 500, nos Estados Unidos, tiveram um crescimento de 45% na lucratividade em relação ao mesmo período de 2025, reforçando a preferência do mercado por setores ligados à tecnologia.

O estrategista da XP reforça que, embora a eleição seja um catalisador de volatilidade, a saída de investidores estrangeiros do Brasil está mais relacionada ao bom desempenho das empresas no mercado americano do que ao processo eleitoral em si. Ele destaca que, apesar de os estrangeiros poderem reduzir posições, a permanência no país continuará, pois o Brasil ainda é visto como uma diversificação de alocação, especialmente devido ao desconto nos valuations das companhias brasileiras em relação às suas contrapartes internacionais.

Em suma, os especialistas ressaltam que o cenário atual é influenciado por múltiplos fatores, incluindo preocupações fiscais internas, incertezas eleitorais e o contexto externo de tensões geopolíticas e juros elevados nos Estados Unidos. Assim, a volatilidade da Bolsa brasileira deve permanecer elevada até que haja maior clareza sobre o panorama político e econômico do país.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade