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Mola gestacional pode evoluir para câncer de placenta: diagnóstico, tratamento e o papel dos centros de referência no Brasil

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A mola gestacional, doença trofoblástica gestacional com potencial de se transformar em câncer de placenta, é tema de atenção médica e pública no Brasil. O diagnóstico costuma surgir a partir de ultrassom durante a gestação, ou por exames de sangue ou urina que apontam a confirmação da gravidez. Embora a maioria dos casos seja tratada com interrupção da gestação e retirada da mola, a doença pode evoluir para câncer em uma parcela das pacientes, principalmente quando a mola é completa. Profissionais do setor destacam a importância de centros de referência para o manejo adequado, diagnóstico, tratamento e apoio psicossocial às pacientes e às famílias.

A mola gestacional ocorre por erros na fertilização e pode se apresentar em duas formas distintas, chamadas de mola incompleta e mola completa. Na mola incompleta, um espermatozoide com DNA duplicado ou dois espermatozoides fecundam um óvulo normal, gerando uma placenta imperfeita acompanhada de um embrião com anomalias genéticas incompatíveis com a vida. Na mola completa, não há embrião: um óvulo sem DNA é fecundado por um espermatozoide, resultando apenas em uma placenta anormal. Em ambas as situações, a gestação precisa ser interrompida para evitar sangramentos e alterações na tireoide e na pressão arterial.

O risco de evolução para câncer de placenta é diferente entre as duas formas: menos de 5% das molações parciais evoluem para malignidade, enquanto em mola completa esse índice sobe para cerca de 20%. Em casos mais agressivos, pode haver metástases, principalmente para os pulmões. O professor Antônio Braga, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que ele coordena o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, o terceiro centro mais importante do mundo no atendimento e na pesquisa sobre mola.

Braga também comenta sobre a incidência no Brasil: “uma em cada 200 a 400 mulheres que engravidam no Brasil vai ter essa doença. Nos Estados Unidos, a taxa é de uma a cada mil, e na Inglaterra, de uma a cada duas mil. Há investigações sobre as razões dessa diferença — fatores genéticos, imunológicos e alimentares são as maiores suspeitas, mas ainda sem conclusões firmes.”

Para a maioria das pacientes, o diagnóstico surge da mesma forma que aconteceu com Daiana Nascimento, terapeuta ocupacional que relata ter descoberto a gravidez por ultrassom de rotina e, pouco depois, ter sido informada de tratar-se de uma mola. Assim como ela, muitas mulheres não tinham ouvido falar da doença antes, o que não significa que ela seja rara. O ambulatório da Maternidade Escola, vinculado ao HU Brasil, atende cerca de 80 pacientes com mola por semana, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), vindas tanto da cidade do Rio de Janeiro quanto de outras cidades e estados. Aproximadamente 30% das pacientes possuem plano de saúde.

Especialistas ressaltam a necessidade de atendimento em centro de referência. Um estudo citado pelo médico ressalta que, quando o acompanhamento ocorre fora desses centros, a probabilidade de falecer pode aumentar entre 10 e 20 vezes. A remoção inicial da mola é realizada por aspiração uterina, mas o acompanhamento continua por meio de exames histopatológicos para confirmar se a mola é parcial ou completa. A partir disso, a paciente passa a realizar consultas periódicas de avaliação geral e medições do hormônio HCG, o marcador tumoral da doença. O diagnóstico definitivo do câncer não se baseia em biópsia; é o próprio hormônio da gravidez que serve como indicador de risco de malignidade, segundo Braga.

Com a interrupção da gravidez, espera-se que o HCG reduza progressivamente até os níveis normais. Se isso não ocorrer, há a possibilidade de células da mola migrarem para o útero, configurando câncer. O tratamento desse câncer é a quimioterapia. Felizmente, grande parte das mulheres tratadas de forma adequada obtém cura e, após a devida remission, podem até engravidar novamente, com acompanhamento pré-natal no mesmo ambulatório que as acompanhou na doença.

Essa é a esperança de Daiana e do marido, Lucas Felipe. “É um sonho que foi adiado por dois anos. Mas que vai vir, se Deus quiser”, afirma a paciente. Daiana concluiu as sessões de quimioterapia e apresenta hormônio HCG normalizado, indicativo de cura. No entanto, para evitar mascarar eventual retorno da doença, ela precisa aguardar alguns meses para tentar novamente a gestação.

Outra experiência citada é a de Mônica Rosa do Amaral Pelizari, que, aos 45 anos, já tinha uma filha quando descobriu a mola após sofrer um aborto espontâneo. Um mês depois, desenvolveu câncer de placenta. Em depoimento, ela descreve o período como um momento de enorme temor, mas também de apoio. “Não houve um dia em que eu não tivesse pessoas queridas comigo. A recuperação foi possível graças à família e aos profissionais”, relembra. Com cirurgia e quimioterapia, Mônica foi curada e hoje realiza consultas anuais de acompanhamento para monitorar o estado de saúde e os níveis hormonais.

Além das necessidades clínicas, o hospital oferece suporte social e psicológico, incluindo recursos de acolhimento como a musicoterapia. A médica do ambulatório, Gabriela Paiva, destaca que a gestação costuma trazer fragilidade não apenas à paciente, mas também à família, reforçando que o diagnóstico costuma ocorrer por acaso e que as pacientes não estão sozinhas no enfrentamento.

O marido de Daiana, Lucas Felipe, reforça que o impacto da perda gestacional envolve toda a família. Ele aponta a importância de apoiar a mulher e também cuidar da saúde mental de quem está próximo, para que as pessoas consigam lidar com as emoções de forma adequada.

O desafio não se restringe apenas ao aspecto emocional. O cotidiano de quem desenvolve mola exige apoio logístico e financeiro considerável. Daiana, moradora de São Pedro da Aldeia, a 141 quilômetros da capital, chegou a depender do transporte médico municipal para as inúmeras consultas e sessões de quimioterapia, perdendo dias de trabalho. Somente nos últimos meses ela passou a ter direito à gratuidade nos ônibus intermunicipais, o que amenizou a rotina de deslocamento. A previsão é de pelo menos seis meses de tratamento, com acompanhamento contínuo pelo centro de referência. “Essas mulheres vão ficar, no mínimo, seis meses vindo aqui. É cansativo. E, às vezes, a gente precisa dar a notícia de que a mola virou câncer. Por isso, pedimos que venham com um acompanhante”, explica a médica Gabriela Braga.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade