Aos 96 anos, Warren Buffett, considerado um dos investidores mais renomados do mundo, anunciou na última sexta-feira (18) sua saída do cargo de presidente do conselho da Berkshire Hathaway, após seis décadas à frente da companhia. Sua trajetória é marcada por uma preferência por investimentos em setores tradicionais da economia, como seguradoras, ferrovias e empresas de serviços públicos, sempre focando em negócios que compreende e que oferecem valor consistente.
Embora a Berkshire Hathaway tenha investimentos em empresas envolvidas na expansão da inteligência artificial, como Apple e Alphabet, Buffett optou por manter uma postura conservadora, apostando principalmente em companhias de alto desempenho e que representam apostas mais seguras. Essa estratégia tem se mostrado lucrativa, especialmente à medida que a expansão da infraestrutura de IA impulsiona a demanda por energia e serviços públicos, setores nos quais a empresa possui participações relevantes.
A relação da Berkshire com o setor energético remonta ao ano de 2000, quando adquiriu a MidAmerican Energy, uma companhia que fornece eletricidade no estado de Iowa e na região Centro-Oeste dos Estados Unidos. Na ocasião, o investimento não tinha relação com inteligência artificial, mas, duas décadas depois, a crescente demanda por energia, impulsionada pela expansão de data centers e pelo uso intensivo de IA na economia, transformou essa aposta em uma fonte significativa de lucro para a companhia.
Segundo Ken Mahoney, presidente e CEO da Mahoney Asset Management, a Berkshire Hathaway estava bem posicionada para aproveitar as necessidades básicas de energia e serviços públicos relacionadas à IA, mesmo sem prever esse cenário na época da aquisição. Mahoney destaca que Buffett sempre entendeu a importância de possuir empresas essenciais para o funcionamento da economia, o que garante uma estabilidade nos lucros, mesmo em contextos de inovação tecnológica.
A região de Iowa, onde a MidAmerican Energy atua, tornou-se um polo de data centers, impulsionando a demanda por energia elétrica. Durante a conferência anual da Berkshire Hathaway, realizada em maio, o CEO Greg Abel, que assumiu o comando da companhia após Buffett em 2025, revelou que aproximadamente 8% da carga energética da Berkshire na região veio de data centers no ano anterior. Cathy Seifert, diretora da CFRA Research, observa que, embora essa conexão com IA tenha sido uma consequência de uma estratégia de investimento anterior, ela reforça a relevância de uma abordagem que combina visão de longo prazo com a compreensão das necessidades essenciais da economia.
Além do setor de energia, a Berkshire Hathaway possui outras empresas de serviços públicos, como a NV Energy, que opera em Nevada, outro estado com forte crescimento de data centers. Uma aposta indireta na IA também se manifestou na aquisição, em 2016, da Precision Castparts, fabricante de componentes utilizados em turbinas e geradores elétricos. Apesar de ter registrado uma baixa contábil de US$ 11 bilhões na época, Buffett admitiu que pagou um valor elevado pela companhia, porém, o aumento na demanda por energia e a expansão do setor de turbinas a gás, essenciais para o funcionamento de data centers, elevaram o valor de mercado da empresa.
Especialistas destacam que essa estratégia de Buffett demonstra uma compreensão profunda das necessidades estruturais da economia, mesmo em tempos de avanços tecnológicos disruptivos. A aposta em empresas de energia e setores tradicionais, muitas vezes consideradas rotineiras, tem se mostrado uma das formas mais sólidas de garantir estabilidade e rentabilidade, mesmo diante de um cenário de rápidas mudanças impulsionadas pela inteligência artificial.