Um novo guia clínico, desenvolvido pela Associação Britânica de Nutricionistas e Dietistas, compila evidências científicas sobre alimentos e bebidas que demonstraram eficácia no alívio da constipação crônica em adultos, popularmente conhecida como prisão de ventre. As recomendações foram publicadas no Journal of Human Nutrition and Dietetics em outubro de 2025 e baseiam-se na análise de 75 ensaios clínicos randomizados. O documento ressalta que diferentes tipos de fibras, frutas e bebidas exercem efeitos variados no intestino, com alguns, como psyllium, kiwi e pão de centeio, apresentando resultados mais consistentes.
Para a elaboração das diretrizes, os pesquisadores revisaram quatro grandes meta-análises e, com base nessas informações, formularam um total de 59 recomendações dietéticas. Foram levadas em conta apenas intervenções que foram analisadas em pelo menos dois estudos clínicos, além de uma avaliação rigorosa da qualidade das evidências e validação por consenso entre especialistas de diversas áreas.
O resultado é um guia que substitui orientações vagamente definidas por recomendações específicas de alimentos, suplementos e bebidas que mostraram benefícios em estudos controlados. O documento também destaca que algumas opções populares carecem de suporte científico suficiente para serem recomendadas como tratamentos.
Entre os suplementos de fibra investigados, o psyllium se destacou por apresentar os resultados mais consistentes. Derivado da casca da semente da Plantago ovata, ele está associado ao aumento da frequência das evacuações, melhora na consistência das fezes e redução do esforço durante a evacuação quando consumido regularmente, em doses semelhantes às utilizadas nas pesquisas. Outras fibras, como a inulina, também foram analisadas, mas mostraram efeitos menos significativos e, frequentemente, estavam relacionadas a desconfortos intestinais, como gases e distensão abdominal.
No que diz respeito aos alimentos, o consumo diário de kiwi — geralmente duas unidades por pelo menos quatro semanas — mostrou-se benéfico para melhorar o trânsito intestinal e a qualidade das fezes, com efeitos em alguns estudos comparáveis aos do psyllium. O pão de centeio, rico em fibras fermentáveis, também apresentou resultados positivos, aumentando o volume fecal e estimulando os movimentos intestinais. Contudo, os autores alertam que as quantidades utilizadas nas pesquisas foram elevadas e podem ser difíceis de incorporar no dia a dia.
Entre as bebidas, águas minerais com alta concentração de magnésio e sulfato mostraram-se eficazes para facilitar a evacuação, já que esses minerais ajudam a atrair água para o intestino, tornando as fezes mais macias e favorecendo sua eliminação. Frutas comumente associadas à melhora da prisão de ventre, como ameixas e maçãs, são mencionadas no guia com algumas ressalvas. Embora sejam opções saudáveis e ricas em fibras, os autores concluem que não há evidências clínicas suficientes para afirmar que o consumo isolado dessas frutas seja um tratamento eficaz para a constipação crônica.
O mesmo raciocínio se aplica a recomendações mais amplas, como dietas apenas descritas como “ricas em fibras”. A falta de estudos robustos levou os pesquisadores a evitar orientações genéricas, focando em alimentos específicos com efeitos mais bem documentados. Apesar de aplicarem critérios rigorosos, muitos dos achados receberam classificação de evidência baixa ou muito baixa devido à carência de estudos maiores na área.
Ainda assim, os autores acreditam que o guia é um passo importante ao organizar as descobertas científicas existentes em orientações mais precisas, que podem auxiliar no manejo de pessoas com constipação crônica.