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‘O Sobrevivente’ apresenta ação mediana, mas não eleva Glen Powell ao estrelato

“O Sobrevivente” é um filme peculiar. Com um histórico promissor, se trata de uma adaptação de uma obra de Stephen King, dirigida por Edgar Wright, um cineasta reconhecido, e estrelada pelo emergente Glen Powell, que divide a tela com um elenco repleto de grandes nomes. A trama é envolvente, com sequências de ação bem elaboradas e um subtexto relevante, mas, paradoxalmente, as partes se destacam mais do que o conjunto. É como um carro a álcool que demora para pegar no frio: ele até liga, mas essa espera pode ser frustrante.

Neste ano, que tem sido prolífico para as adaptações de Stephen King, com lançamentos como “O Macaco”, “A Vida de Chucky” e “A Longa Marcha”, “O Sobrevivente” se apresenta como o projeto mais ambicioso. A película traz à vida o livro de 1982, assinado sob o pseudônimo Richard Bachman, encapsulando o melhor do thriller distópico. Em um futuro onde conglomerados de mídia se misturam ao governo, “The Running Man” se destaca como o programa de maior audiência, transformando seus participantes em fugitivos do Estado, caçados em todo o país. Aqueles que sobrevivem por um mês têm a chance de conquistar uma fortuna.

Ben Richards (interpretado por Powell), um homem desempregado com uma filha doente, se inscreve e é escolhido a dedo pelo produtor Dan Killian (Josh Brolin), sendo apresentado como uma ameaça pública no programa conduzido por Bobby T (Colman Domingo). De volta às ruas, Ben se torna alvo de caçadores profissionais, com cada movimento seu monitorado pela mídia, enquanto atravessa o país (inclusive fazendo uma parada em Derry). Entre as cenas de ação, “O Sobrevivente” busca questionar o fascínio hipnótico da mídia sobre o público, assim como os limites éticos e morais do entretenimento.

Embora a temática não fosse nova em 1982, continua a ser relevante em 2025, coincidindo com o ano em que a história se passa. O material parecia perfeito para Wright, que, de “Todo Mundo Quase Morto” a “Noite Passada em Soho”, passando pelos icônicos “Scott Pilgrim Contra o Mundo” e “Em Ritmo de Fuga”, sempre entregou obras que equilibram grandes ideias com um toque pop vibrante. Contudo, desta vez, ele não consegue transcender a essência sombria e desconfortável da narrativa, inserindo sua visão dinâmica em um projeto que clama por reflexão. Apesar de ser mais fiel à obra original do que a adaptação estrelada por Arnold Schwarzenegger, “O Sobrevivente” ainda se posiciona como um espetáculo, ao invés de uma reflexão profunda.

Vale lembrar que a história já havia sido adaptada para o cinema em 1987, com Schwarzenegger no papel principal. Na era Reagan, essa versão flertou com o tema do governo totalitário, mas, no final das contas, era um filme de ação focado no carisma do protagonista. As divergências em relação ao material original eram evidentes, revelando limitações orçamentárias e tecnológicas da época. Mesmo assim, Schwarzenegger deu um toque especial à obra, tornando até o famoso macacão amarelo algo icônico.

Arnold chegou a defender a nova versão de Wright, participando de sessões ao lado do diretor e do elenco, mostrando seu carisma inegável. Glen Powell, por sua vez, ainda busca solidificar seu papel como o astro que Hollywood almeja: talentoso, atraente, carismático e acessível, mas ainda em processo de amadurecimento. Ele, sem dúvida, tem potencial, mas ainda não alcançou o status de seu colega Tom Cruise. No entanto, sua ambição é inegável.

A decepção com “O Sobrevivente”, no entanto, reside no fato de que Edgar Wright parece ter dirigido com cautela excessiva. Sua filmografia, que normalmente é leve e repleta de momentos criativos, aqui experimenta uma queda significativa. O generoso orçamento parece ter limitado suas ideias mais arrojadas. A energia vibrante que caracteriza o trabalho de Wright está ausente, e quando há tentativas de trazer essa energia à tona, a pressão de atender às expectativas de um grande estúdio resulta em cenas sem impacto. Ao chegar ao terceiro ato, em uma longa sequência a bordo de um avião, o filme não consegue mais decolar.

“O Sobrevivente” pode ter sido prejudicado pelo próprio contexto atual. O que era uma distopia em 1982 — ou mesmo em 1987 — hoje se reflete na mídia com game shows e reality shows cada vez mais exaustivos, que transformam participantes em heróis ou vilões conforme a necessidade da audiência. O estado totalitário e a promiscuidade com os poderosos, presentes na visão de King, perdem impacto diante da realidade quase distópica que vivemos. Com o subtexto sobre manipulação da mídia e a criação de um herói da classe oprimida substituído por uma narrativa acelerada, o público acaba se sentindo anestesiado em relação às questões profundas da obra original.

Entretanto, nada disso diminui a criatividade de Edgar Wright ou o potencial de Glen Powell. O que se evidencia é que “O Sobrevivente” foi transformado de uma trama inteligente em um produto moldado pelas exigências de um mercado que teme mudanças de hábitos. Como um filme de ação apenas razoável, “O Sobrevivente” ainda consegue entreter, mas se fosse um lançamento contemporâneo ao seu antecessor, provavelmente seria rapidamente esquecido na prateleira de uma locadora. Para o gênero, essa é uma morte de proporções lamentáveis.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade