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O maior desastre radiológico da história ocorreu no Brasil e inspirou uma série

Imagem: Helena Yoshioka/Netflix

A minissérie “Emergência Radiológica” estreia hoje na Netflix, baseada no trágico incidente radiológico que ocorreu em Goiânia.

O que aconteceu
Assim como retratado na série, o evento real teve lugar em Goiânia. No dia 13 de setembro de 1987, dois catadores de materiais recicláveis, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, invadiram uma clínica de radioterapia que havia sido fechada dois anos antes. Nela, descobriram equipamentos abandonados e decidiram levá-los a um ferro-velho para venda. No dia seguinte, ambos começaram a sentir os efeitos da contaminação: náuseas, vômitos e tontura, mas inicialmente atribuíram seus sintomas a uma possível intoxicação alimentar.

No ferro-velho, o equipamento foi desmontado, e a cápsula de césio foi aberta. Devair Ferreira, proprietário do ferro-velho, ao abrir a cápsula para reaproveitar o revestimento de chumbo, se deparou com um pó branco que brilhava no escuro: era cloreto de césio-137. Fascinado, ele levou a substância para casa, onde a apresentou a sua esposa, Maria Gabriela, e ao irmão, Ivo Ferreira. Ivo, por sua vez, mostrou o pó a sua filha, Leide das Neves, que passou horas brincando com o material e, posteriormente, comeu um ovo cozido que sua mãe havia preparado, ingerindo assim partículas do material radioativo. Quinze minutos depois, começou a vomitar. Nas semanas seguintes, vários familiares e amigos que tiveram contato com a substância também adoeceram.

Leide e Maria Gabriela foram as primeiras a sucumbir ao acidente. Ambas faleceram em 23 de outubro, em isolamento em um hospital, após Maria Gabriela suspeitar que o pó branco estava relacionado ao adoecimento da família e alertar as autoridades. Dois funcionários do ferro-velho, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza, também morreram na mesma semana: Israel no dia 27 de outubro e Admilson no dia 28.

Devair e Ivo são considerados vítimas indiretas. Relatos de familiares indicam que ambos sucumbiram à depressão após o trágico evento e desenvolveram vícios. “Devair faleceu sete anos após o acidente, em 1994. O laudo médico indicou cirrose hepática, mas a autópsia revelou câncer em três órgãos. Ivo morreu em 2003, vítima de enfisema pulmonar. Os vícios afetaram muito ambos. Devair se entregou à bebida, enquanto Ivo se tornou um fumante compulsivo, chegando a consumir seis maços por dia”, revelou Odesson, irmão de ambos, em entrevista à BBC em 2011.

Atualmente, esse é reconhecido como o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares. A Associação das Vítimas do Césio 137 estima que mais de cem mortes ocorreram devido à contaminação nos anos seguintes e afirma que cerca de 1.600 pessoas ainda enfrentam os efeitos da radiação: “Geralmente, são doenças comuns, mas que se manifestam com maior frequência e precocidade. Por exemplo, osteoporose e hipertensão são condições habituais, mas é comum que jovens de 18 ou 20 anos as apresentem? Outra enfermidade recorrente é a úlcera. Praticamente todos os afetados têm essa condição. E 100% das pessoas têm gastrite”, comentou Odesson, presidente da associação, em entrevista à BBC.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade