A ideia de uma bebida que promete reduzir a gordura hepática antes de dormir atrai muitos em busca de soluções rápidas. Contudo, não existem milagres, e a noção de “detox” é, na verdade, infundada.
De acordo com o nutricionista Richard Cleber, que atua em Brasília, algumas bebidas são respaldadas por evidências científicas e podem auxiliar no tratamento da gordura no fígado. No entanto, seus efeitos são complementares e exigem também uma reestruturação nos hábitos alimentares e no estilo de vida.
A hepatologista Daniela Carvalho, da Clínica Gastrocentro, destaca que a ideia de atalhos deve ser deixada de lado. “O conceito de detox do fígado é popular, mas carece de fundamento científico, uma vez que esse órgão já desempenha a função de desintoxicação no corpo”, explica.
A resposta direta é não: até o momento, não há comprovação científica de que o consumo de qualquer bebida específica antes de dormir possa reduzir a gordura no fígado. A esteatose hepática é uma condição metabólica, e o que realmente faz a diferença são os hábitos gerais, incluindo uma alimentação balanceada, a prática de atividades físicas, e o controle do peso e da glicemia.
Embora algumas bebidas possam auxiliar de forma secundária, nenhuma delas substitui a necessidade de emagrecimento e de uma reeducação alimentar. O fígado opera em harmonia com os ritmos biológicos; consumir alimentos ou bebidas calóricas perto da hora de dormir pode prejudicar o metabolismo e contribuir para o acúmulo de gordura ao longo do tempo.
O padrão alimentar global é o que realmente importa. Mais relevante do que o horário de consumo é a qualidade nutricional e a quantidade de calorias ingeridas ao longo do dia.
Outro ponto importante é a resistência à insulina, que pode ser exacerbada à noite, especialmente quando há ingestão tardia de alimentos e padrões de sono irregulares, favorecendo o acúmulo de gordura no fígado.
Mitos como a água morna com limão como um remédio para a gordura hepática são infundados. Embora possa ser uma opção saudável para hidratação, especialmente se substituir bebidas açucaradas, não tem propriedades desintoxicantes nem contribui para a redução da gordura hepática.
Chás como boldo, chá-verde e hibisco são populares, mas não devem ser considerados tratamentos. Alguns podem fazer parte de um estilo de vida saudável, mas não são indicados como terapia para o fígado e, em certos casos, podem até ser prejudiciais.
Os chamados “shots detox” podem apresentar riscos significativos. Muitas dessas misturas incluem ervas e extratos concentrados sem regulamentação adequada e podem causar lesões hepáticas, além de não haver evidências científicas de que promovam qualquer tipo de “limpeza”.
A silimarina, composta natural derivada do cardo-mariano (Silybum marianum), é conhecida por suas propriedades hepatoprotetoras e antioxidantes. Embora apresente benefícios modestos em alguns pacientes, especialmente na melhora de exames laboratoriais, os estudos são inconsistentes. Não é considerada um tratamento eficaz para a gordura no fígado e deve ser usada apenas como complemento, se indicada.
A vitamina E também não apresenta efeitos relacionados ao horário. Tomá-la à noite não proporciona benefícios adicionais, e seu uso sem supervisão médica não é recomendado, pois doses elevadas e prolongadas podem ter riscos, especialmente para pessoas com diabetes ou problemas cardiovasculares.
Hábitos noturnos também podem contribuir para o acúmulo de gordura no fígado. A falta de sono é um fator cada vez mais associado ao agravamento da gordura hepática, pois a privação do sono aumenta a resistência à insulina, favorece o ganho de peso e desregula o metabolismo.
Não existe uma bebida milagrosa que elimine a gordura no fígado durante a noite. O que realmente importa é a consistência. Café e chá verde podem oferecer benefícios modestos, mas o tratamento eficaz continua sendo a mudança de estilo de vida, a perda de peso quando necessário, o controle metabólico e um sono de qualidade. O básico, quando executado com comprometimento, ainda é a intervenção mais poderosa para a proteção do fígado.
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